23 de agosto de 2012

Z DE ZHEN

ZHEN,  A PÉROLA
- E posso saber onde vais assim, vestida com a minha roupa?
- Vou ser tu!
- Volta para aqui.
- Não, não me podes ordenar o que seja, sou o imperador. Fica à minha espera, não vou demorar-me, não te vistas.
- Eu sou o imperador, e tu, minha concubina, amanhã serás minha consorte, mas agora obedece-me, vem.
- Tu és só um homem, deitado, despido, à espera da amante.
- Queres que chame outra companhia?
- Outra companhia não te beijará com a minha boca.
- Nem com o teu beijo, será outro, um que não morde, talvez chame.
- Chama. Manda que Li Feng venha, tem os mamilos rosados e cheira tão bem. Assim escuso de voltar.
- Dormirei, sabes que gosto de dormir depois.
- O que preferires, se dormires já o meu corpo não acordará o teu.
- Mentes.
- Sim.

E escapuliu-se vestida com as roupas dele. Zhen era assim, manchu até ao osso. Tinha vinte e dois anos nessa noite em havia dez que entrara na Cidade Proibida e de simples concubina de quinta ordem, subira na burocracia, lenta, mas rápida no amor fulgente: amanhã seria consorte e dizia-se à boca pequena que, se vivesse, cedo ou tarde, seria imperatriz. Apesar de ser um caso nunca visto, e mal visto, pois Guangxu, o imperador, não dormia com outra que não ela - não lhe ficava bem, não era próprio, era uma doença. Enviaram-lhe as melhores cortesãs. Rejeitou-as. O problema era Zhen.

Zhen fora educada, de facto, não pelo seu clã, os Tatala, mas na Cidade Proibida onde tinha, não apenas tido, mas aproveitado tudo dos grandes mestres de quem fora discípula, da pintura à música - se antes estiolara, aqui desabrochara. Mesmo os que de entre eles, por razões políticas, ou pessoais, não a apreciavam, reconheciam-lhe superior inteligência e pensamento indómito – uma chinesice para a originalidade. E havia a incontornável questão energética: o elemento metal, nela, era forte, prendia a criatividade não à obra mas ao centro do ser, portanto, substanciava-se nas acções. Por isso, aqueles que a admiravam e respeitavam, a desejavam imperatriz, as soluções seriam imprevisíveis, todavia o curso seguiria adiante e ao fim o sucesso estava garantido. Se vivesse. O metal tem isto nas mulheres, são inocentes como as crianças, más como as crianças, boas como as crianças, porém fortes e claras como generais. Falta-lhes a malícia dos príncipes. O excesso de metal, naquelas proporções de água, madeira, fogo e terra, trazia o brilho de vénus: uma feminilidade exuberante numa cabeça analítica e um coração de pureza infantil. Ou seja, um perigo para si própria, sem a protecção de outros: o que não se compreende, atrai a destruição, a diferença deve ser sempre escondida até que, apoiada em firme base de entendimento consonante com o mundo, possa ser revelada para criar entusiasmo e abrir caminho.

Guangxu rejeitou as cortesãs, desinteressou-se das concubinas e consortes – as poucas vezes em que se cruzara com Jin, irmã de Zhen, fora para se pasmar: como era possível que duas Tatala do mesmo pai e da mesma mãe, fossem o sol e a lua? Jin, sua consorte também, era igual a tantas de outros nomes, vindas de qualquer província. Rejeitou-as. Zhen, chegava-lhe, era muitas, e era sempre a mesma, única. Um prazer e um suplício, por vezes não sabia se valia a pena, aquela abelha enchia-lhe a cabeça do zumbido, lambia-lhe os lábios com mel para logo a seguir o picar. Pior só quando era nenhuma e desaparecia no palácio ou do palácio, vestida de homem, Gunagxu estava mesmo convencido de que ela já teria saído da Cidade Proibida. Era bem capaz disso. Sozinha. E de voltar. E calar. Vinte pessoas à procura dela e ela a desenhar o voo dos pássaros sentada no telhado. Como? Uma abelha. Não, não, pior ainda do que quando desaparecia era quando acordava sobre o lado esquerdo. O lado esquerdo de Zhen rasgava linhas de sismo pelo chão das salas.

Ele dizia-lhe:
- quem te visita nos teus sonhos para me inventares estes dias?
E ela respondia-lhe, invariavelmente:
- o teu espírito visita-me enquanto dormes para que te conte o que não queres saber.
- E o que não quero saber hoje?
- O Punho Justo e Harmonioso cresce, juntam-se-lhe cada vez mais pobres a quem o Império voltou as costas por séculos, e será Cixi a aproveitar a força desta montanha que sobe da terra.
- Cixi está no palácio de verão, retirou-se, e desta vez, ela e a sua corte não descerão, não depois do escândalo do desvio de fundos.
- Mas a imperatriz, tua mulher e prima, sobrinha de Cixi, está aqui, ao nosso lado, no palácio dela.
- Que queres que faça, se posso fazer tão pouco? Se avanço com as reformas, O Punho Justo e Harmonioso afirmará que corrompo as memórias dos nossos ancestrais, e mais nacionalistas extremados se lhes juntarão. Se não nos modernizamos, se não tratamos com o ocidente em termos vantajosos, acabaremos por ter de aceitar, mais cedo que tarde, termos humilhantes.
- Tens de chegar ao teu povo. Tens de ser também o teu povo. Mais do que o céu na terra, é o que tens de ser. Agora. É tarde, sabêmo-lo. Não é tarde demais. E com ele, com o teu povo, tens de limpar os corredores das traições, expor a corrupção, sangrá-la, e abrir o império ao ocidente. O teu povo, o passado e o ocidente serão a tua força.
- Não conheço o povo, não falamos a mesma língua.
- Não faz mal, eu estou aqui, chegas ao teu povo através de mim. Sem ele, vivemos num jazigo: estamos mortos e não sabemos.
- Foi isso que o meu espírito pediu que viesses dizer-me?
- Sim, isso e que me adoras.

Infelizmente, Zhen e o espírito de Guangxu estavam ambos certos. Após aquela que ficou conhecida como a Revolta dos Boxers, Zhen foi presa e posteriormente afogada pelos eunucos de Cixi: teve, mesmo na posição precária em que se encontrava, chicoteada publicamente e aprisionada, a ousadia de exigir a Cixi que fosse o Imperador a governar e a negociar com a Aliança dos Oito que se formara para romper o cerco levantado em Pequim pelo Punho Justo e Harmonioso, e defender as próprias embaixadas, e os interesses no oriente. Pior, quando Cixi mandou que se suicidasse, recusou tirar a própria vida - ainda que tal a poupasse em sofrimento. Nada facilitou a Cixi. Enquanto isto, Guangxu foi considerado inapto por decreto assinado pela mesma mão, a de Cixi.

Foi aqui, e foi assim, que morreu a Cidade Proibida.

(Guangxu, imperador, nascido a 14 Agosto 1871, morreu em 14 Novembro 1908, tentou implantar a Reforma dos Cem Dias, estrutural, que foi suspensa pelo golpe de estado de Cixi. Tinha várias concubinas, duas consortes, Jin e Zhen, e por esposa principal, a imperatriz, Xiaodingjing, sua prima.

Zhen, nascida a 27 de Fevereiro 1876, foi morta a 15 de Agosto de 1900. Na realidade, foi  elevada de concubina a consorte de Guangxu em apenas um ano de estada na Cidade Proibida.)



Letra Z, de um inteiro alfabeto feminino todo dedicado a Agustina Bessa-Luís, escritora maior.