2 de agosto de 2012

iv - Para Borges, ao serão

Pequeninas histórias para o serão de Borges.
A SENHORA A.
- Senhora A.?
- Sim, sou eu.
- A senhora participou-nos um furto no dia 1 de Janeiro.
- Sim. Tinha acabado de ser roubada. Acordei e estava num corpo desconhecido - percebi que alguma coisa estava errada mesmo antes de chegar ao espelho: as articulações dos dedos das mãos doíam-me. Aquela cama, a casa… não eram as minhas, sequer o despertador, enfim, estava noutra vida. Nem o meu marido nem os meus filhos estavam. E até o cão tinha desaparecido. Nem o trabalho era o meu - se algum dia poderia estar à frente de uma repartição das finanças? Nunca, não tenho essas competências. Marquei logo uma consulta de emergência no psiquiatra – pensei que não estava boa da cabeça. Mas ele, que não, que não, que não era um delírio. E lá fui à polícia.
- E fez muito bem. Conforme a informámos na altura, recebemos, então, e continuamos a receber, inúmeras queixas da mesma natureza, de vítimas com o mesmo perfil, acordam noutra vida porque a delas desapareceu. Mas no seu caso, e na verdade em mais alguns, após termos seguido uma informação que se revelou verdadeira, temos uma boa notícia: quem estava a viver a sua vida, estava com fraco desempenho a todos os níveis, familiar, profissional, perda de produtividade, saúde, bem estar, enfim, foi possível detectar a identidade fraudulenta. Mas terá ainda uma longa batalha pela frente, só um tribunal poderá decidir a apreensão e devolver-lhe corpo, as relações familiares, sociais e profissionais, e os bens.
- Sabe o que é viver outra vida que não a sua? É uma obsessão: não se pensa em mais nada, não se quer mais nada se não o que se é e nos falta. Todos os esforços, todas as acções são em direcção a essa peça central que se constrói diariamente ou se desfaz. Agradeço-vos muito por terem encontrado a minha vida. E lamento que outra pessoa esteja a vivê-la mal, lamento por ela e por quem está com ela e por todos a quem toca, que somos todos. Mas a verdade é que passou muito tempo. Já não a quero. Querer cansa.