28 de agosto de 2012

iii - Histórias de Portugal

SANTA - Uma rainha para Deus
Os pobres não têm voz. Não se ouvem até que a fome ruja. E são invisíveis. Existem contra as evidências até que, um dia, de repente, ocupam toda a visão. Num prodígio dos sentidos, sem ser percebida, esta massa de muda transparência atravessa os dias pelos séculos: a pobreza. Hoje como ontem.

Ontem é agora enquanto Isabel, rainha de Portugal, mãe do povo e por ele feita santa pelo milagre que transmutou o pão em rosas, desce as escadas frias, arrepiada da humidade que a agarra pelos tecidos que a cobrem quais camadas de cebola, uma sobre a outra, a renda do saiote de baixo do valor de uma pequena quinta e uma família comeria do que a terra restituísse à mão na enxada que a abrira. Um saiote. Uma quinta.
A aia:
- senhora, a neve cai, fiquemos dentro.
A rainha:
-  a neve cai sobre fome. Saímos afora.
Manhã após manhã, missa, oração, caridade. O cumprimento do dever religioso era-lhe fácil porque se lhe tornara necessário: a oração alimenta a fé como um caldo quente fortalece um corpo fraco, a caridade acorda a potência da bondade e a compaixão, e se fossem ela, o marido, o filho, caídos em desgraça, de braço dado com a aflição, quem por eles quando Deus parece fechar os olhos? A acção convoca a força e a esperança. E abre mesmo os olhos fechados, se não os de Deus, os próprios. Nos campos, nos caminhos, nas casas, nas albergarias, nas leprosarias, um dia de cada vez, um pobre, um doente, um condenado em cada vez, um de cada vez, ela ainda jovem, ainda, nem um cabelo branco entre os fios louros, viriam tarde, e mãe de tantos filhos… Quantos filhos tem a miséria?

Não sabia porque razão, do nada, ao pisar no último degrau, recordara a viagem em que acompanhou o seu marido, Dinis, a Tarragona, onde ele fora fazer a paz entre Aragão e Castela. Que homem. Que paixão. Ninguém lhe tinha dito antes de casar que não seria apenas um contrato entre Portugal e Aragão. Saiu rainha de casa de seu pai para ser rainha, não saíra para mais do que isso e, afinal, tanto mais tivera. Mas, também, o que se pode dizer-se a uma criança de doze anos? O rei de Portugal, o seu marido, Dom Dinis, aquele homem ruivo, baixo e forte como touro, seria, Isabel sabia-o, um rei mesmo sem coroa nem ceptro, mesmo sem reino: decidia e agia pelo todo, nunca pela parte. Plantava futuros. Pois não é verdade que ao dar-se corpo ao sonho, se dá guarida à alma? Da vontade dele, do seu planeamento, renasceu o reino pela reforma política: foram forais, cartas de feiras, foram razões de povoamento e lavoura; foram inquirições e reequílbrio de poderes; foram negociações na linha da fronteira e geometria de traçado nas vilas. Cresceu o pinhal de Leiria para atravessar o mar. Exigiu o português oficial e os Estudos Gerais, levantou a universidade para inventar ciência. E para o coração, da língua fez poesia. Que homem. Os olhos da Europa pregam-se neles, e não é só pelo poder, poderes,  e riqueza reais, ela sente-o. Nem é porque sejam o casal que o romantismo por vir desenha a perfeições, não são, mas porque são um casal como não há outro: dois corpos, dois pensamentos, dois corações para uma só substância: de que matéria é feito o amor? De mistério. Só se o vê porque, taça cheia, sempre transborda. Se em Dinis esse amor se derrama nas concretudes que acrescentam sopro ao reino, em Isabel derramam-se nos mais desvalidos entre os pobres, os doentes, os prisioneiros. Entre os esquecidos da boa fortuna. Transborda sempre de vida, o amor, nele florescem as horas onde tempo não passa: o amor também é a memória da eternidade.

Talvez fosse a saudade da primavera, de um céu mais brando, que a fizera recordar a viagem a Tarragona. Ou a alegria à volta da mesa, das sucessivas mesas de festa - ninguém vê a diplomacia debaixo da toalha. Um fruto. Provara um fruto, polposo e doce, rosado e translúcido, logo desfeito na língua. Coisa longínqua, presente de rei. Impossível líchia. Seria? O sol morno, a mesa farta, a doçura tão perfumada do mínimo fruto, uma  alegria.  Era o que queria ter nas mãos para que o Deus da multiplicação de pães e peixes, que belo fora o sermão, o multiplicasse, e ela, apenas humana, terreal, o dividisse entre os seus: sol, mesa farta, alegria.

A neve caía. Seguiria adiante, seguia nos passos que antes dela fizeram o mesmo caminho, fugia-lhe já o pensamento para a sua tia avó, rainha Isabel como ela, da Hungria e da Turíngia, porém. Logo cedo, depois da missa, o marido:
- é-vos muito grato o povo, faz-vos santa e devolve-vos em devoção o que lhe dais de bons cuidados.
- para que o meu senhor veja o quanto viaja o conto de um milagre.
- a vossa parenta recebeu uma graça do divino espírito e dobrou-se-lhe a carne à santidade. É o mesmo sangue que vos abençoa os actos.
- sim, com certeza Isabel terá recebido a graça de Deus, a santidade, não houve por mãos de rainha maior desvelo do que o dela: quem mais lavou os leprosos e teceu para vestir as prostitutas? Quisera eu encontrar Cristo nos olhos de um doente. Porém apenas encontro a doença que é dele como seria nossa. Minha e tua. De Isabel acredito que do ouro que levava para as esmolas proibidas, se fizeram rosas. Todavia, do meu regaço onde só pão, nada mais que pão. E tomara eu que mais pão fora. E de vossa boca nunca ouvi, da tua boca nunca, como os ouvidos da minha tia bisavó ouviram, reparos de rei nem de marido.
- que havia eu de reparar-vos, que poderia reparar-te Isabel, se te dei os filhos de fora do casamento para criação, se vos amo, amo-te, e confio? Sereis lembrada como santa pela bondade com que alimentas o povo.
- também vós sereis lembrado por alimentares reino e povo: nem todo o alimento é pão.