4 de agosto de 2012

ii - Histórias de Portugal

XIMENA DE MONIZ - Uma mulher para reinar


Ele estava perto. Henrique. Tão perto que podiam saber-lhe pelos passos a direcção, pelas vontades o pensamento. A açafata viera contar do estranho pedido que ouvira no corredor, depois do natural pedido de mais lenha no lume: que o deixassem só. Teresa procurou os olhos da mãe, Ximena. Esta ergueu o queixo como um dedo indicador e levantou as sobrancelhas. Teresa seguiu a linha que o queixo desenhara a grosso, sem nada esconder, e bateu com o olhar no rosto da sua irmã, Urraca. Teresa percebeu. Não seria naquele momento que mãe lhe diria: se queres saber quem é o teu marido, onde irá, que fará, com uma orelha ouve o que diz, e com a outra orelha mais ouve, o que ele cala. Ximena nada diria que acrescentasse a Urraca mesmo não ocultando que em nada a acrescentaria.

Assim era Ximena, destemida. Não fora e há muito tempo estaria vazia a sua cama em vez de quente: Afonso era homem de muitas mulheres, e as que diriam não ao homem, diziam sim ao rei e imperador. Ela, a sua mais antiga amante, a única constante no tempo, ora presente na corte, ora em casa de seu pai de onde vaticinavam sempre que não regressaria, regressara de todas as idas, dera-lhe já duas filhas e ali estava a primeira delas no dia da consumação do casamento.

Educara-a bem. Teresa tinha quinze anos e dominava o uso das rédeas: o poder é igual em todo lado, há que saber quando dar para ganhar perdendo, e quando tirar para ganhar tomando, seja na sela, no trono ou na cama. Não lhe saíra de feições, uma pena que a juventude perdoava e a matura idade cobraria. Coisa de somenos, o caminho fora-lhe estendido, o pai pagara em filhas bem dotadas os braços que Raimundo e Henrique acrescentaram na luta ao almorávida. Mourama. Zaida.

Zaida. Essa sim, fora um espinho de paixão enfiado na carne de ambos. Na sua própria, que a detestava porque a de Afonso que se enamorara dela. Mel sobre mel adoça a língua porém acaba por enjoar os lençóis. Demorara. Tiveram um filho. Nasceu e vingou. Filha do inimigo, aliança para ninho de traições e Afonso fizera-lhe um filho, o único filho homem. Bem, ela conhecia a alma negra destes novos mouros que traziam à Galiza a areia do Sahara. Quanto tempo ainda viveria esse filho? Zaida. Mesmo naquele chão e diante de uma memória apenas, cuspia no mal daquele nome já morto e benzia-se. Zaida. O ódio é uma casa para a eternidade.

Pela vontade de Deus, ela, Ximena, havia sido criada por homens, filha de uma mãe por homens criada, não sucumbia, lutava. Nascera para rainha, ainda que lhe faltasse a coroa no sangue, sobrava-lha na influência. Pensava como um homem, agia como um homem, mas os modos, ah os modos, só doçura e graça e raça - estas a idade não come.

Tudo estava no lugar. Ele não casara a filha que lhe nascera dentro do casamento melhor do casava esta filha. Ainda que a Raimundo tal parecesse, que tinha levado a melhor das filhas – a si, que lhe interessava isso?, a verdade não se compadece de aparências. Nas voltas da roda da vida, Henrique era agora vassalo de Raimundo, governando uma porção do que o primo possuía, ele próprio possuidor de menos. Todavia, não é quanto um homem tem, é quanto um homem domina. Talvez por condição inferior de nascimento, talvez não, Raimundo tinha mais olhos do que barriga. Lisboa estava perdida, e Santarém também. Ela conhecia o homem que lhe dormia na cama. Não era homem que perdoasse isto ou fosse cego à ambição dos tinha em volta. Henrique tinha a barriga do tamanho, não dos olhos, do olhar, e este ia longe, mas só um passo de cada vez.

Ah, se o tempo fosse maleável… quem casaria com Henrique, seria ela, e Leão e Castela, tremeriam.