25 de agosto de 2012

A CASA - i


OS BELOS FIGOS DA TRAIÇÃO
As mulheres têm uma relação estranha com as casas que habitam: querem assim e  assado, isto aqui, aquilo ali. Ainda pior com os jardins. Não interessa se o jardim é um vaso, um canteiro, um parque. Na verdade, não é uma relação estranha, é uma cosmologia essencial. Acho que os homens percebem isso, mesmo quando não se dão conta, ou então o sentido prático já lhes mostrou que em matéria de casas não podem bater de frente com a mulher que lhes coube em sorte.

A minha avó não era diferente. Ora, havia ao lado da cozinha, com acesso apenas por uma porta lateral desta, fechado todo em volta, um jardim de cozinha, um quintal pequeno, não mais de quinze ou vinte metros quadrados, de ladrilhos no chão e azulejos a meia parede. Não, não era uma horta de cozinha, só havia o que havia, ervas aromáticas de um lado que da porta não se via, à esquerda, e em frente, um belíssimo canteiro num arranjo à vontade da dona: uma fartura de lírios de várias espécies, e uma poinsétia, ou Dezembro, enormíssima, de tamanho despropositado, feita árvore alta e cheia, que floria cedo e longamente em estrelas vermelhas. Como a minha avó fazia aniversário em Novembro, e nessa altura já ela estava  exuberante de cor, passou a chamar-lhe Novembro e nunca mais ninguém lhe chamou outra coisa. Green thumb era o que a minha avó tinha.

Aconteceu que uma figueira resolveu nascer nesse canteiro que não era de frutas. E ao lado da Novembro. A minha avó mandou transplantá-la. E a figueira transplantada, sabe-se lá como, nasceu outra vez no mesmo lugar enquanto o resto de si crescia onde fora mandado que crescesse. À segunda, a minha avó mandou arrancá-la. Arrancou-se a figueira. E ela nasceu outra vez.

Na altura, trabalhava lá em casa, intermitentemente, a fazer nunca soube o quê, mas estou convencida que era só geleia, marmelada, doce de laranja, uma senhora muito beata de quem a minha avó dizia, é muito boa, coitada, mas qualquer dia deita-me fogo à casa, porque teimava em acender lamparinas de azeite e fumo a santos e retratos de mortos. A minha avó, que tinha horror à igreja católica, jogava tudo fora depois de ela se ir embora, coitada, é viúva e acredita naquelas superstições, não tem culpa, quem tem é a igreja, estes padres que não têm vergonha de pregar aquilo que não fazem, coitada, na cabeça dela, aquilo é um bem que nos está a fazer. Passados uns meses, quando ela voltava, começava tudo outra vez: azeite e fumo.

Pois coincidiu numa dessas idas e voltas a terceira vida da figueira. A dona Lila, tão pequenina, mas tão pequenina que eu tão pequena que nem lembrava das outras vidas da figueira podia pensar, ao lado dela, que não me faltava muito tamanho para ser de tamanho de gente crescida, e nunca esquecerei da pele amarelo escuro quase castanho, ai o que sofro da minha bílis, vaticinou por via das conversações com santos e as beatas amigas: tem de se jogar águarrás na raiz, é um sinal de grande traição a preparar-se, a figueira é a árvore de Judas. Acreditei logo. Aliás, acreditava em tudo de torturas no inferno, e no inferno, em forquilhas, e pavores e vapores satânicos que se libertavam enquanto ela lá estava. Enfim. Antes que a minha avó viesse de onde estava, melhor o fez em furinhos pela terra abaixo. E a árvore teve uma infernal morte horrível  e definhou queimando de dentro para fora.

A minha avó não deve ter achado graça àquilo porque a dona Lila não voltou a acender nem mais uma lamparina, nem a fazer-me uma cruz pequenina na testa com o polegar húmido de azeite. Só doce de tomate, compota. Quando a figueira ressuscitou, a minha avó disse não sei para quem, estava na cozinha, ouvi e não esqueci: tão católicos que são, tanta água benta, que nojo, onde toda a gente mete a mão, tudo a beijar o pezinho de Cristo, que nojo, que viveiro de doenças, e não entendem que sem Judas não há Cristo.

E lá cresceu a figueira dando belos figos no canteiro de flores do quintal da cozinha.