24 de agosto de 2012

01 - POEMAS DO NOVO MUNDO

BECKETTIANA PORTUGUESA
Yeats primeiro pois quem
Murakami não só muito mais tarde
e até ao cansaço de Mnemosine:
a nossa responsabilidade começa nos sonhos
Limpei os armários as gavetas
tirei escolhi arrumei
não sobrou um vestido que tenha sido usado
um plano contado um objectivo sequer um desejo
Rasguei os postais
e os envelopes
o passado e os futuros passados
não há uma letra de qualquer mão
uma fotografia onde se haja vivido
A grande arte do desaparecimento é esta
foi Kafka não Houdini quem explicou:
não basta fazer que se desaparece
não basta que ao fim se desapareça
a morte
a minha a tua  a nossa
não convence o coração dos vivos
Vive-se e é preciso nunca ter existido
ou pelo menos duvidar-se a existência
para que tudo possa continuar depois
de não ter o que continuar
nem como continuar
nem onde continuar