30 de agosto de 2012

KMS


estou de férias estou de férias estou de férias - kiss me stupid! VIVA!


Poemas com pássaros - ii

LOVE IS A BIRD
Atira-se aos pássaros
Vêm pousar todo o peso da leveza
sobre o anelar esquerdo e alteram
para sempre
o centro de gravidade do mundo
Simplesmente pousam
no único dedo que atinge em cheio
o coração - bebedouro de água fresca
Sobre o anelar esquerdo Pousam 
O único Em cheio
Já os antigos o afirmavam
em círculos de eternidade
aqueles a que chamamos alianças
E no mais alto dos orientes pratica-se
a marcial pressão certa no ponto certo
rápida letal
num suspiro a vida pára de bater no peito
sem tempo para dizer adeus
Vêm pousar
Ainda a gota de água no bico
de espanto sem tempo nem para
pára de bater
Atira-se aos pássaros
Morrem depressa Caem devagar
Ana Marchand, s/título, tinta da china e guache sobre papel

Bonjour Mundo!

lailailai pour aller danser danser
lailai
je serai la plus belle pour aller danser
lailai

29 de agosto de 2012

Poemas com pássaros - i

UMA CASA NA DURAÇÃO
Se tudo no amor é repetição
todo o futuro é passado e estamos salvos
Faremos como os pássaros:
beberemos a memória da água doce
nas bicas jorradas
só de secura
Ana Marchand, s/título, tinta da china e guache sobre papel

Bonjour Mundo!

lailailailai
i would love to
lailai

28 de agosto de 2012

iii - Histórias de Portugal

SANTA - Uma rainha para Deus
Os pobres não têm voz. Não se ouvem até que a fome ruja. E são invisíveis. Existem contra as evidências até que, um dia, de repente, ocupam toda a visão. Num prodígio dos sentidos, sem ser percebida, esta massa de muda transparência atravessa os dias pelos séculos: a pobreza. Hoje como ontem.

Ontem é agora enquanto Isabel, rainha de Portugal, mãe do povo e por ele feita santa pelo milagre que transmutou o pão em rosas, desce as escadas frias, arrepiada da humidade que a agarra pelos tecidos que a cobrem quais camadas de cebola, uma sobre a outra, a renda do saiote de baixo do valor de uma pequena quinta e uma família comeria do que a terra restituísse à mão na enxada que a abrira. Um saiote. Uma quinta.
A aia:
- senhora, a neve cai, fiquemos dentro.
A rainha:
-  a neve cai sobre fome. Saímos afora.
Manhã após manhã, missa, oração, caridade. O cumprimento do dever religioso era-lhe fácil porque se lhe tornara necessário: a oração alimenta a fé como um caldo quente fortalece um corpo fraco, a caridade acorda a potência da bondade e a compaixão, e se fossem ela, o marido, o filho, caídos em desgraça, de braço dado com a aflição, quem por eles quando Deus parece fechar os olhos? A acção convoca a força e a esperança. E abre mesmo os olhos fechados, se não os de Deus, os próprios. Nos campos, nos caminhos, nas casas, nas albergarias, nas leprosarias, um dia de cada vez, um pobre, um doente, um condenado em cada vez, um de cada vez, ela ainda jovem, ainda, nem um cabelo branco entre os fios louros, viriam tarde, e mãe de tantos filhos… Quantos filhos tem a miséria?

Não sabia porque razão, do nada, ao pisar no último degrau, recordara a viagem em que acompanhou o seu marido, Dinis, a Tarragona, onde ele fora fazer a paz entre Aragão e Castela. Que homem. Que paixão. Ninguém lhe tinha dito antes de casar que não seria apenas um contrato entre Portugal e Aragão. Saiu rainha de casa de seu pai para ser rainha, não saíra para mais do que isso e, afinal, tanto mais tivera. Mas, também, o que se pode dizer-se a uma criança de doze anos? O rei de Portugal, o seu marido, Dom Dinis, aquele homem ruivo, baixo e forte como touro, seria, Isabel sabia-o, um rei mesmo sem coroa nem ceptro, mesmo sem reino: decidia e agia pelo todo, nunca pela parte. Plantava futuros. Pois não é verdade que ao dar-se corpo ao sonho, se dá guarida à alma? Da vontade dele, do seu planeamento, renasceu o reino pela reforma política: foram forais, cartas de feiras, foram razões de povoamento e lavoura; foram inquirições e reequílbrio de poderes; foram negociações na linha da fronteira e geometria de traçado nas vilas. Cresceu o pinhal de Leiria para atravessar o mar. Exigiu o português oficial e os Estudos Gerais, levantou a universidade para inventar ciência. E para o coração, da língua fez poesia. Que homem. Os olhos da Europa pregam-se neles, e não é só pelo poder, poderes,  e riqueza reais, ela sente-o. Nem é porque sejam o casal que o romantismo por vir desenha a perfeições, não são, mas porque são um casal como não há outro: dois corpos, dois pensamentos, dois corações para uma só substância: de que matéria é feito o amor? De mistério. Só se o vê porque, taça cheia, sempre transborda. Se em Dinis esse amor se derrama nas concretudes que acrescentam sopro ao reino, em Isabel derramam-se nos mais desvalidos entre os pobres, os doentes, os prisioneiros. Entre os esquecidos da boa fortuna. Transborda sempre de vida, o amor, nele florescem as horas onde tempo não passa: o amor também é a memória da eternidade.

Talvez fosse a saudade da primavera, de um céu mais brando, que a fizera recordar a viagem a Tarragona. Ou a alegria à volta da mesa, das sucessivas mesas de festa - ninguém vê a diplomacia debaixo da toalha. Um fruto. Provara um fruto, polposo e doce, rosado e translúcido, logo desfeito na língua. Coisa longínqua, presente de rei. Impossível líchia. Seria? O sol morno, a mesa farta, a doçura tão perfumada do mínimo fruto, uma  alegria.  Era o que queria ter nas mãos para que o Deus da multiplicação de pães e peixes, que belo fora o sermão, o multiplicasse, e ela, apenas humana, terreal, o dividisse entre os seus: sol, mesa farta, alegria.

A neve caía. Seguiria adiante, seguia nos passos que antes dela fizeram o mesmo caminho, fugia-lhe já o pensamento para a sua tia avó, rainha Isabel como ela, da Hungria e da Turíngia, porém. Logo cedo, depois da missa, o marido:
- é-vos muito grato o povo, faz-vos santa e devolve-vos em devoção o que lhe dais de bons cuidados.
- para que o meu senhor veja o quanto viaja o conto de um milagre.
- a vossa parenta recebeu uma graça do divino espírito e dobrou-se-lhe a carne à santidade. É o mesmo sangue que vos abençoa os actos.
- sim, com certeza Isabel terá recebido a graça de Deus, a santidade, não houve por mãos de rainha maior desvelo do que o dela: quem mais lavou os leprosos e teceu para vestir as prostitutas? Quisera eu encontrar Cristo nos olhos de um doente. Porém apenas encontro a doença que é dele como seria nossa. Minha e tua. De Isabel acredito que do ouro que levava para as esmolas proibidas, se fizeram rosas. Todavia, do meu regaço onde só pão, nada mais que pão. E tomara eu que mais pão fora. E de vossa boca nunca ouvi, da tua boca nunca, como os ouvidos da minha tia bisavó ouviram, reparos de rei nem de marido.
- que havia eu de reparar-vos, que poderia reparar-te Isabel, se te dei os filhos de fora do casamento para criação, se vos amo, amo-te, e confio? Sereis lembrada como santa pela bondade com que alimentas o povo.
- também vós sereis lembrado por alimentares reino e povo: nem todo o alimento é pão.

Bonjour Mundo!

lailailai
life can be so sweet lailailailai
can´t you hear the pitter-pat
that happy tune is your step
life can be complete 
lailailai
i am not afraid this rover has crossed over
gold dust at my feet
lailailailai

27 de agosto de 2012

Do u speak lailailai?

Estou a aprender estrangeiro com o tio Vivaldi que línguas e literaturas é academia demais para mim - sou uma rapariga simples. O Verão é com o primo Zukerman. O Inverno, palpita-me, ficará para o primo Perlman. À la Tordesilhas para não haver discussões em família.

L´ Estate

Summer

Bonjour Mundo!

lailalailailai
comme un garçon moi j'ai ma moto
comme un garçon je fais du rodéo
c'est la terreur à 200 à l'heure
comme un garçon
comme un garçon je n'ai peur de rien
comme un garçon moi j'ai des copains
et dans la bande c'est moi qui commande
comme un garçon
 pourtant je ne suis qu'une fille
et quand je suis avec toi
je n'suis qu'une petite fille
je fais ce que je veux de toi
lailailai


Vá-se uma pessoa fiar destes letristas... ora adeus!

26 de agosto de 2012

A OUTRA FACE - 7


A outra face desta semana é risonha. Quer dizer: não tem nada a ver comigo, mas fez-me rir. Não é preciso ser de tu cá tu lá com a Cabeça de Cão para saber que tenho alegria do sorriso, um círculo vicioso de bem estar - que hei-de fazer? Xeque ao Cão? Então isso faz-se, Senhor Luís?

Evangelho Segundo A Cabeça de Cão

[Do filme de Godard, Pierrot le Fou, só este bocadinho. Havia de plasmar aqui o argumento, perdão, o Evangelho inteiro, versículo a versículo. Mas sois pecadores do piorio e não o mereceis.]


Cabeça de Cão : Palavra da Salvação.
Leitores do Cabeça de Cão: Qual? Qual? Todas as a que a menina canta? Ó fartura. E o para sempre? E o futuro?
Cabeça de Cão: O passado é o que fomos e tivémos. O futuro, haverá, ou não. O presente é tudo o que somos e temos, toujours é agora ou nunca será: se estivermos no presente, todo o tempo estará em nós -  o resto é converseta e a vida é demasido curta para a adiarmos. Dimanche há mais.

25 de agosto de 2012

Zás!

Estava a ouvir as notícias e, Zás!, tive uma epifania: o amor, ui que medo!, é uma caravela portuguesa: se não é marinheiro, fuja, pois queima ou mata. Já as alforrecas - medusas parece-me um bocadinho amaricado - têm uma transparente gracinha desde que não nos toquem para não, vá, desafinarmos. É ir brincar para praia, meninas, é ir...

A CASA - i


OS BELOS FIGOS DA TRAIÇÃO
As mulheres têm uma relação estranha com as casas que habitam: querem assim e  assado, isto aqui, aquilo ali. Ainda pior com os jardins. Não interessa se o jardim é um vaso, um canteiro, um parque. Na verdade, não é uma relação estranha, é uma cosmologia essencial. Acho que os homens percebem isso, mesmo quando não se dão conta, ou então o sentido prático já lhes mostrou que em matéria de casas não podem bater de frente com a mulher que lhes coube em sorte.

A minha avó não era diferente. Ora, havia ao lado da cozinha, com acesso apenas por uma porta lateral desta, fechado todo em volta, um jardim de cozinha, um quintal pequeno, não mais de quinze ou vinte metros quadrados, de ladrilhos no chão e azulejos a meia parede. Não, não era uma horta de cozinha, só havia o que havia, ervas aromáticas de um lado que da porta não se via, à esquerda, e em frente, um belíssimo canteiro num arranjo à vontade da dona: uma fartura de lírios de várias espécies, e uma poinsétia, ou Dezembro, enormíssima, de tamanho despropositado, feita árvore alta e cheia, que floria cedo e longamente em estrelas vermelhas. Como a minha avó fazia aniversário em Novembro, e nessa altura já ela estava  exuberante de cor, passou a chamar-lhe Novembro e nunca mais ninguém lhe chamou outra coisa. Green thumb era o que a minha avó tinha.

Aconteceu que uma figueira resolveu nascer nesse canteiro que não era de frutas. E ao lado da Novembro. A minha avó mandou transplantá-la. E a figueira transplantada, sabe-se lá como, nasceu outra vez no mesmo lugar enquanto o resto de si crescia onde fora mandado que crescesse. À segunda, a minha avó mandou arrancá-la. Arrancou-se a figueira. E ela nasceu outra vez.

Na altura, trabalhava lá em casa, intermitentemente, a fazer nunca soube o quê, mas estou convencida que era só geleia, marmelada, doce de laranja, uma senhora muito beata de quem a minha avó dizia, é muito boa, coitada, mas qualquer dia deita-me fogo à casa, porque teimava em acender lamparinas de azeite e fumo a santos e retratos de mortos. A minha avó, que tinha horror à igreja católica, jogava tudo fora depois de ela se ir embora, coitada, é viúva e acredita naquelas superstições, não tem culpa, quem tem é a igreja, estes padres que não têm vergonha de pregar aquilo que não fazem, coitada, na cabeça dela, aquilo é um bem que nos está a fazer. Passados uns meses, quando ela voltava, começava tudo outra vez: azeite e fumo.

Pois coincidiu numa dessas idas e voltas a terceira vida da figueira. A dona Lila, tão pequenina, mas tão pequenina que eu tão pequena que nem lembrava das outras vidas da figueira podia pensar, ao lado dela, que não me faltava muito tamanho para ser de tamanho de gente crescida, e nunca esquecerei da pele amarelo escuro quase castanho, ai o que sofro da minha bílis, vaticinou por via das conversações com santos e as beatas amigas: tem de se jogar águarrás na raiz, é um sinal de grande traição a preparar-se, a figueira é a árvore de Judas. Acreditei logo. Aliás, acreditava em tudo de torturas no inferno, e no inferno, em forquilhas, e pavores e vapores satânicos que se libertavam enquanto ela lá estava. Enfim. Antes que a minha avó viesse de onde estava, melhor o fez em furinhos pela terra abaixo. E a árvore teve uma infernal morte horrível  e definhou queimando de dentro para fora.

A minha avó não deve ter achado graça àquilo porque a dona Lila não voltou a acender nem mais uma lamparina, nem a fazer-me uma cruz pequenina na testa com o polegar húmido de azeite. Só doce de tomate, compota. Quando a figueira ressuscitou, a minha avó disse não sei para quem, estava na cozinha, ouvi e não esqueci: tão católicos que são, tanta água benta, que nojo, onde toda a gente mete a mão, tudo a beijar o pezinho de Cristo, que nojo, que viveiro de doenças, e não entendem que sem Judas não há Cristo.

E lá cresceu a figueira dando belos figos no canteiro de flores do quintal da cozinha.

Bonjour Mundo!


shhh shhh
it´s oh so quiet lailailailai
you´re all alone shh shh and so peaceful until
lailailailai
zing boom
lailailai
zing boom
lailailai
wham bam
you blow a fuse
the devil cuts loose
wham bam
lailailai
so what´s the use
of falling in love
é sábado é sábado é sábado viva sábado VIVA!

01. POESIA? TAMBÉM EU QUERIA...

POESIA? TAMBÉM EU QUERIA...
i
 Poema às Línguas de Gato
Às vezes, o gato come-me a língua.
Fico tão triste. Nem consigo falar.
Vou comer línguas de gato pra me vingar.

24 de agosto de 2012

Bonjour Mundo!

lailailai
i won´t do the cookin´ darling
i won´t pay the rent
lailailai
but if you do me wrong 
i´ll throw you out
Bill whatever your name is
lailai

Se lhe disserem que a letra não é bem esta, olhe, vá, diga que virtuosas é no piano, no violino, ou desesperadas, ou assins.

01 - POEMAS DO NOVO MUNDO

BECKETTIANA PORTUGUESA
Yeats primeiro pois quem
Murakami não só muito mais tarde
e até ao cansaço de Mnemosine:
a nossa responsabilidade começa nos sonhos
Limpei os armários as gavetas
tirei escolhi arrumei
não sobrou um vestido que tenha sido usado
um plano contado um objectivo sequer um desejo
Rasguei os postais
e os envelopes
o passado e os futuros passados
não há uma letra de qualquer mão
uma fotografia onde se haja vivido
A grande arte do desaparecimento é esta
foi Kafka não Houdini quem explicou:
não basta fazer que se desaparece
não basta que ao fim se desapareça
a morte
a minha a tua  a nossa
não convence o coração dos vivos
Vive-se e é preciso nunca ter existido
ou pelo menos duvidar-se a existência
para que tudo possa continuar depois
de não ter o que continuar
nem como continuar
nem onde continuar

23 de agosto de 2012

Z DE ZHEN

ZHEN,  A PÉROLA
- E posso saber onde vais assim, vestida com a minha roupa?
- Vou ser tu!
- Volta para aqui.
- Não, não me podes ordenar o que seja, sou o imperador. Fica à minha espera, não vou demorar-me, não te vistas.
- Eu sou o imperador, e tu, minha concubina, amanhã serás minha consorte, mas agora obedece-me, vem.
- Tu és só um homem, deitado, despido, à espera da amante.
- Queres que chame outra companhia?
- Outra companhia não te beijará com a minha boca.
- Nem com o teu beijo, será outro, um que não morde, talvez chame.
- Chama. Manda que Li Feng venha, tem os mamilos rosados e cheira tão bem. Assim escuso de voltar.
- Dormirei, sabes que gosto de dormir depois.
- O que preferires, se dormires já o meu corpo não acordará o teu.
- Mentes.
- Sim.

E escapuliu-se vestida com as roupas dele. Zhen era assim, manchu até ao osso. Tinha vinte e dois anos nessa noite em havia dez que entrara na Cidade Proibida e de simples concubina de quinta ordem, subira na burocracia, lenta, mas rápida no amor fulgente: amanhã seria consorte e dizia-se à boca pequena que, se vivesse, cedo ou tarde, seria imperatriz. Apesar de ser um caso nunca visto, e mal visto, pois Guangxu, o imperador, não dormia com outra que não ela - não lhe ficava bem, não era próprio, era uma doença. Enviaram-lhe as melhores cortesãs. Rejeitou-as. O problema era Zhen.

Zhen fora educada, de facto, não pelo seu clã, os Tatala, mas na Cidade Proibida onde tinha, não apenas tido, mas aproveitado tudo dos grandes mestres de quem fora discípula, da pintura à música - se antes estiolara, aqui desabrochara. Mesmo os que de entre eles, por razões políticas, ou pessoais, não a apreciavam, reconheciam-lhe superior inteligência e pensamento indómito – uma chinesice para a originalidade. E havia a incontornável questão energética: o elemento metal, nela, era forte, prendia a criatividade não à obra mas ao centro do ser, portanto, substanciava-se nas acções. Por isso, aqueles que a admiravam e respeitavam, a desejavam imperatriz, as soluções seriam imprevisíveis, todavia o curso seguiria adiante e ao fim o sucesso estava garantido. Se vivesse. O metal tem isto nas mulheres, são inocentes como as crianças, más como as crianças, boas como as crianças, porém fortes e claras como generais. Falta-lhes a malícia dos príncipes. O excesso de metal, naquelas proporções de água, madeira, fogo e terra, trazia o brilho de vénus: uma feminilidade exuberante numa cabeça analítica e um coração de pureza infantil. Ou seja, um perigo para si própria, sem a protecção de outros: o que não se compreende, atrai a destruição, a diferença deve ser sempre escondida até que, apoiada em firme base de entendimento consonante com o mundo, possa ser revelada para criar entusiasmo e abrir caminho.

Guangxu rejeitou as cortesãs, desinteressou-se das concubinas e consortes – as poucas vezes em que se cruzara com Jin, irmã de Zhen, fora para se pasmar: como era possível que duas Tatala do mesmo pai e da mesma mãe, fossem o sol e a lua? Jin, sua consorte também, era igual a tantas de outros nomes, vindas de qualquer província. Rejeitou-as. Zhen, chegava-lhe, era muitas, e era sempre a mesma, única. Um prazer e um suplício, por vezes não sabia se valia a pena, aquela abelha enchia-lhe a cabeça do zumbido, lambia-lhe os lábios com mel para logo a seguir o picar. Pior só quando era nenhuma e desaparecia no palácio ou do palácio, vestida de homem, Gunagxu estava mesmo convencido de que ela já teria saído da Cidade Proibida. Era bem capaz disso. Sozinha. E de voltar. E calar. Vinte pessoas à procura dela e ela a desenhar o voo dos pássaros sentada no telhado. Como? Uma abelha. Não, não, pior ainda do que quando desaparecia era quando acordava sobre o lado esquerdo. O lado esquerdo de Zhen rasgava linhas de sismo pelo chão das salas.

Ele dizia-lhe:
- quem te visita nos teus sonhos para me inventares estes dias?
E ela respondia-lhe, invariavelmente:
- o teu espírito visita-me enquanto dormes para que te conte o que não queres saber.
- E o que não quero saber hoje?
- O Punho Justo e Harmonioso cresce, juntam-se-lhe cada vez mais pobres a quem o Império voltou as costas por séculos, e será Cixi a aproveitar a força desta montanha que sobe da terra.
- Cixi está no palácio de verão, retirou-se, e desta vez, ela e a sua corte não descerão, não depois do escândalo do desvio de fundos.
- Mas a imperatriz, tua mulher e prima, sobrinha de Cixi, está aqui, ao nosso lado, no palácio dela.
- Que queres que faça, se posso fazer tão pouco? Se avanço com as reformas, O Punho Justo e Harmonioso afirmará que corrompo as memórias dos nossos ancestrais, e mais nacionalistas extremados se lhes juntarão. Se não nos modernizamos, se não tratamos com o ocidente em termos vantajosos, acabaremos por ter de aceitar, mais cedo que tarde, termos humilhantes.
- Tens de chegar ao teu povo. Tens de ser também o teu povo. Mais do que o céu na terra, é o que tens de ser. Agora. É tarde, sabêmo-lo. Não é tarde demais. E com ele, com o teu povo, tens de limpar os corredores das traições, expor a corrupção, sangrá-la, e abrir o império ao ocidente. O teu povo, o passado e o ocidente serão a tua força.
- Não conheço o povo, não falamos a mesma língua.
- Não faz mal, eu estou aqui, chegas ao teu povo através de mim. Sem ele, vivemos num jazigo: estamos mortos e não sabemos.
- Foi isso que o meu espírito pediu que viesses dizer-me?
- Sim, isso e que me adoras.

Infelizmente, Zhen e o espírito de Guangxu estavam ambos certos. Após aquela que ficou conhecida como a Revolta dos Boxers, Zhen foi presa e posteriormente afogada pelos eunucos de Cixi: teve, mesmo na posição precária em que se encontrava, chicoteada publicamente e aprisionada, a ousadia de exigir a Cixi que fosse o Imperador a governar e a negociar com a Aliança dos Oito que se formara para romper o cerco levantado em Pequim pelo Punho Justo e Harmonioso, e defender as próprias embaixadas, e os interesses no oriente. Pior, quando Cixi mandou que se suicidasse, recusou tirar a própria vida - ainda que tal a poupasse em sofrimento. Nada facilitou a Cixi. Enquanto isto, Guangxu foi considerado inapto por decreto assinado pela mesma mão, a de Cixi.

Foi aqui, e foi assim, que morreu a Cidade Proibida.

(Guangxu, imperador, nascido a 14 Agosto 1871, morreu em 14 Novembro 1908, tentou implantar a Reforma dos Cem Dias, estrutural, que foi suspensa pelo golpe de estado de Cixi. Tinha várias concubinas, duas consortes, Jin e Zhen, e por esposa principal, a imperatriz, Xiaodingjing, sua prima.

Zhen, nascida a 27 de Fevereiro 1876, foi morta a 15 de Agosto de 1900. Na realidade, foi  elevada de concubina a consorte de Guangxu em apenas um ano de estada na Cidade Proibida.)



Letra Z, de um inteiro alfabeto feminino todo dedicado a Agustina Bessa-Luís, escritora maior.

Bonjour Mundo!

lailailai
shaking the blues away unhappy news away
if you are blue it's easy to
shake off your cares and troubles
telling the blues to go they may refuse to go
but as a rule they'll go if you'll
shake them away
do like the voodoos do list'ning to a voodoo melody
they shake their bodies so to and fro
with every shake a lucky break
proving that there's a way to chase your cares away
if you would lose your weary blues
shake 'em away


Não vos disse, seus malvados, que ainda ainda havíamos de voltar à mesma antes de lailailai?! Pois muito bem: voltámos.

13 de agosto de 2012

I´ll be back...



Acabam de me contar que numa certa casa se afirma que o Cabeça de Cão nem tão nem balalão. Ó drama tecnológico que me obriga a justificações em pleno Agosto: o diabo do post agendado ficou mal amanhado e não se auto-plasmou! Ei-lo. Olhai, não os lírios do campo, o título e menina - o tal do amanho implasmado. 

Não, não são férias: apesar de nascidinho de fresco há dois meses e alguns dias, são, vá, blogo-obras, manobras, sei lá, quelque chosezinha que não posso contar - e se pudesse também não contava. Mas ainda haverá mais do que já houve antes de haver, lá mais para diante, o que ainda não há. É esperar, svp. Pourquoi? Porque sedes ingratos, perversos e lailailailai! Ide à fava que também eu fui: fortalece o carácter e esclarece a vocação.

4 de agosto de 2012

ii - Histórias de Portugal

XIMENA DE MONIZ - Uma mulher para reinar


Ele estava perto. Henrique. Tão perto que podiam saber-lhe pelos passos a direcção, pelas vontades o pensamento. A açafata viera contar do estranho pedido que ouvira no corredor, depois do natural pedido de mais lenha no lume: que o deixassem só. Teresa procurou os olhos da mãe, Ximena. Esta ergueu o queixo como um dedo indicador e levantou as sobrancelhas. Teresa seguiu a linha que o queixo desenhara a grosso, sem nada esconder, e bateu com o olhar no rosto da sua irmã, Urraca. Teresa percebeu. Não seria naquele momento que mãe lhe diria: se queres saber quem é o teu marido, onde irá, que fará, com uma orelha ouve o que diz, e com a outra orelha mais ouve, o que ele cala. Ximena nada diria que acrescentasse a Urraca mesmo não ocultando que em nada a acrescentaria.

Assim era Ximena, destemida. Não fora e há muito tempo estaria vazia a sua cama em vez de quente: Afonso era homem de muitas mulheres, e as que diriam não ao homem, diziam sim ao rei e imperador. Ela, a sua mais antiga amante, a única constante no tempo, ora presente na corte, ora em casa de seu pai de onde vaticinavam sempre que não regressaria, regressara de todas as idas, dera-lhe já duas filhas e ali estava a primeira delas no dia da consumação do casamento.

Educara-a bem. Teresa tinha quinze anos e dominava o uso das rédeas: o poder é igual em todo lado, há que saber quando dar para ganhar perdendo, e quando tirar para ganhar tomando, seja na sela, no trono ou na cama. Não lhe saíra de feições, uma pena que a juventude perdoava e a matura idade cobraria. Coisa de somenos, o caminho fora-lhe estendido, o pai pagara em filhas bem dotadas os braços que Raimundo e Henrique acrescentaram na luta ao almorávida. Mourama. Zaida.

Zaida. Essa sim, fora um espinho de paixão enfiado na carne de ambos. Na sua própria, que a detestava porque a de Afonso que se enamorara dela. Mel sobre mel adoça a língua porém acaba por enjoar os lençóis. Demorara. Tiveram um filho. Nasceu e vingou. Filha do inimigo, aliança para ninho de traições e Afonso fizera-lhe um filho, o único filho homem. Bem, ela conhecia a alma negra destes novos mouros que traziam à Galiza a areia do Sahara. Quanto tempo ainda viveria esse filho? Zaida. Mesmo naquele chão e diante de uma memória apenas, cuspia no mal daquele nome já morto e benzia-se. Zaida. O ódio é uma casa para a eternidade.

Pela vontade de Deus, ela, Ximena, havia sido criada por homens, filha de uma mãe por homens criada, não sucumbia, lutava. Nascera para rainha, ainda que lhe faltasse a coroa no sangue, sobrava-lha na influência. Pensava como um homem, agia como um homem, mas os modos, ah os modos, só doçura e graça e raça - estas a idade não come.

Tudo estava no lugar. Ele não casara a filha que lhe nascera dentro do casamento melhor do casava esta filha. Ainda que a Raimundo tal parecesse, que tinha levado a melhor das filhas – a si, que lhe interessava isso?, a verdade não se compadece de aparências. Nas voltas da roda da vida, Henrique era agora vassalo de Raimundo, governando uma porção do que o primo possuía, ele próprio possuidor de menos. Todavia, não é quanto um homem tem, é quanto um homem domina. Talvez por condição inferior de nascimento, talvez não, Raimundo tinha mais olhos do que barriga. Lisboa estava perdida, e Santarém também. Ela conhecia o homem que lhe dormia na cama. Não era homem que perdoasse isto ou fosse cego à ambição dos tinha em volta. Henrique tinha a barriga do tamanho, não dos olhos, do olhar, e este ia longe, mas só um passo de cada vez.

Ah, se o tempo fosse maleável… quem casaria com Henrique, seria ela, e Leão e Castela, tremeriam.

Bonjour Mundo!

lailailai
’cause people are funny and they don’t know what they want when they have it
it’s only things they don’t know that they can believe in
yeah just take ’em or leave ’em
lailailai
é sábado é sábado é sábado viva sábado VIVA!

3 de agosto de 2012

Newsletter

Ali ao lado, Na Cabeça  do Cão, a imagem é a do que me está a ocupar o desejo, não só de escrever, como de ir escrevendo: são os, chamemos-lhe, pensamentos residentes: Borges, Ana Vidigal, Paula Rego, e agora Aurélie Dupont, mas também o Ballet. Outros virão para ir ficando - só quero dizer que escrevo e continuo a escrever sobre/para eles e vou publicando à medida da vontade, da disposição, lailailailailai.

Logo abaixo, na Cabeça dos Dias, a coisa muda de figura. De figuras. Tenho paixões recorrentes pela fotografia. Não quero cá saber se já as vi e revi até as saber de cor: são uns diabos, não me cansam os olhos e faz-me feliz, muito, mostrar o que é tão bom, dizer: gostem.

Se este é o Alfa blog, perdão, Dog, raios, tem haver Beta Dogs, ou não haveria alfa que o pensamento não vive do prana. Comecei pelo Derr Terrorist por razões óbvias: leio-o nem sei há quanto tempo, às vezes para nos indignar-nos juntos, outras para discordar dele, mas querendo ouvi-lo - e porque, amanha umas fotografias que me agarram pelos olhos. E dá música à hora certa. Aliás, quando estou farta da bloga em geral e em particular, não me farto nem deste, nem dos que se lhe hão-de seguir. 

Bonjour Mundo!

quítate de la ventana porque voy a suspirar
mis suspiros son de fuego
y te pueden abrasar
 qué quieres de mi
qué quieres de mi
lailailai


2 de agosto de 2012

iv - Para Borges, ao serão

Pequeninas histórias para o serão de Borges.
A SENHORA A.
- Senhora A.?
- Sim, sou eu.
- A senhora participou-nos um furto no dia 1 de Janeiro.
- Sim. Tinha acabado de ser roubada. Acordei e estava num corpo desconhecido - percebi que alguma coisa estava errada mesmo antes de chegar ao espelho: as articulações dos dedos das mãos doíam-me. Aquela cama, a casa… não eram as minhas, sequer o despertador, enfim, estava noutra vida. Nem o meu marido nem os meus filhos estavam. E até o cão tinha desaparecido. Nem o trabalho era o meu - se algum dia poderia estar à frente de uma repartição das finanças? Nunca, não tenho essas competências. Marquei logo uma consulta de emergência no psiquiatra – pensei que não estava boa da cabeça. Mas ele, que não, que não, que não era um delírio. E lá fui à polícia.
- E fez muito bem. Conforme a informámos na altura, recebemos, então, e continuamos a receber, inúmeras queixas da mesma natureza, de vítimas com o mesmo perfil, acordam noutra vida porque a delas desapareceu. Mas no seu caso, e na verdade em mais alguns, após termos seguido uma informação que se revelou verdadeira, temos uma boa notícia: quem estava a viver a sua vida, estava com fraco desempenho a todos os níveis, familiar, profissional, perda de produtividade, saúde, bem estar, enfim, foi possível detectar a identidade fraudulenta. Mas terá ainda uma longa batalha pela frente, só um tribunal poderá decidir a apreensão e devolver-lhe corpo, as relações familiares, sociais e profissionais, e os bens.
- Sabe o que é viver outra vida que não a sua? É uma obsessão: não se pensa em mais nada, não se quer mais nada se não o que se é e nos falta. Todos os esforços, todas as acções são em direcção a essa peça central que se constrói diariamente ou se desfaz. Agradeço-vos muito por terem encontrado a minha vida. E lamento que outra pessoa esteja a vivê-la mal, lamento por ela e por quem está com ela e por todos a quem toca, que somos todos. Mas a verdade é que passou muito tempo. Já não a quero. Querer cansa.


Deslargue já o raio do ecrã!

É fácil saber: tem os olhos feitos em pixels? As pontinhas dos dedos começaram a ficar quadradas como as teclas? E as costas, ai-ai? Deslargue já! o raio do ecrã e abra os ouvidos:

Yoga não é uma religião, nem um segredo nem uma ginástica para contorcionistas. É uma prática. Praticar é fazer. Fazer o quê? 

1. Criar espaço.
2. Ligar.

Parece uma contradição. Não é - there are two sides to every story e para esta também. Faça. Como?

1.  Fazendo - isso é a prática.
2.  Posturas, ou asanas - criando, pouco a pouco, em cada dia, espaço.
3. Respirando - inspirando e expirando, isto é, ligando o movimento do corpo com pensamento, intencionalmente.
4.  Olhando. Onde está o olhar está a atenção. Onde está a atenção, mais cedo que tarde estará a acção.

Agora comprove o que lhe digo.

1. Levante o rabo da cadeira e vá até à janela.
2. Fique em pé, os dois pés bem assentes no chão, numa posição estável e confortável, nada de rigidez de vassoura. Descontraído: ombros baixos, ligeiramente para trás para abrir o peito, pescoço direito, cabeça levantada, queixo só um quase nadinha inclinado para baixo, e sorria um sorriso secreto - um daqueles: parece que está a sorrir, estará? Se lhe parecer complicado, lembre-se de uma coisa feliz que não tenha contado a ninguém e seja só sua.
3. Procure com o olhar o ponto mais distante no horizonte - não faz mal se for a varanda da vizinha da frente. Sequer fará mal se não tiver janela - feche os lindos olhinhos e visualize o sol no meio do céu.
4. Respire como os bebés: quando inspirar deixe que primeiro se encha o abdómen, depois o peito  até às omoplatas. E quando expirar sinta o ar passar na garganta e note que sai morninho nas narinas - quando entrou era mais fresquinho, pois era? Três ou quatro respirações assim, mais profundas do que o habitual todavia sem exageros de mergulhador.

Mas o que é que está a fazer aí plasmado, de pé, à janela?! Vá já trabalhar que a vida não é mandrice...

Porque hoje é quinta-feira

MIL QUILÓMETROS TODOS PARA VOLTAR
Não sou romântica
não suspiro entre ah rosas
caixas de recordações
lixem-se
Mas como digo
o amor
dizem ah romântica
enquanto isso vejo salmões
Digo amor como quem pensa
Faulkner
romantismo de salmões:
um dia no mar da migração
dispara a hora e mata o tempo
abre-se a vida e a bússola
mil quilómetros todos para voltar
É só isto
O amor é o primeiro aceno da morte
lembrança de inteireza
floração completa da flor
mesma a dor em contra corrente rio acima
dor para educação do corpo – hora da vida hora da morte
dor natural não dói 
o tempo certo é fora do tempo 
 Romantismo de salmões:
rio acima a voar
a alma tal o corpo quer regressar a casa

Bonjour Mundo!

my baby just cares for me
lailailailai
my baby just cares for me

1 de agosto de 2012

Isto, meus filhos, é, vá, o Buñuel da pop!


[nota: ai não percebeu porquê? Azarucho que não estou pedagógica... Pronto - a culpa, a culpa, o raio da culpa, que nervos!]

xvi - Ces petits riens

ii - C´est quoi la passion? Digam o que quiserem, digam mesmo o contrário já que sempre o disseram, é uma manobra de diversão, mas quem comanda o desejo é a mulher, através da paixão a que serve, e quem comanda o casamento é o homem, através do patriarcado de séculos a que serve. Se a paixão é um lobo, o casamento é um cão. Se assim não fosse, porque se daria ao amor apaixonado um só, e apenas um lugar, e mais nenhum, inexorável? O lugar da paixão é a morte, o lugar do casamento é vida. O lobo e o cão. Todos os amantes morrem, hão-de morrer sempre. Morrem porque não ficaram juntos, isso paga-se com a vida. Ou morrem porque estão juntos e isso paga-se em vida.

Bonjour Mundo!

du är é saga för god för att vara sann
det är é saga i sig att vi funnit varan
vi kunde lika gärna aldrig någonsin mötts
eller var vårt möte redan bestämd långt innan vi fötts
who knows 
pas toi pas moi
vem vet inte du
vem vet inte jag
vi vet ingenting nu
vi vet inget idag
vem vet inte du
vem vet inte jag
vi vet ingenting nu
vi vet inget idag
lailailailailai