3 de julho de 2012

Raul Herberto Brandão Helder


(No outro dia, há algum tempo, reli Húmus, de Raul Brandão, e na noite seguinte Húmus, de Herberto Helder. Ficou a apetecer-me, há-de ter ficado a apetecer-me, exercício igual, jogo com as regras que HH definiu: brincadeira como a brincada pelos miúdos - daquelas mesmo a sério, portanto. A brincadeira é como a paixão que se apropria do corpo amado para melhor o amar, não é? Enfim, o mesmo jogo, a mesma regra – fuga tal a da música? Não a partir de Húmus, apenas de A pedra espera ainda dar flor.)


A PEDRA ESPERA AINDA DAR FLOR
Soerguido pelo único esforço da erva, sou o grito dos mortos. Ouves?

Uma tarde que viesse nas pontas dos pés, uma candeia em mão de mulher: claridade  de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.

A praça debaixo de água, tudo isto, pátio castelo escada torre porta, tudo isto flutua debaixo de água com um povo de estátuas por cima, um povo de mortos em baixo. Somos o reflexo, o mundo não é real.

Uma tarde que viesse nas pontas dos pés, uma candeia em mão de mulher: claridade  de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.

Fecho os olhos. O silêncio. E o que se cria no silêncio é uma voz - as bocas falam por muitas bocas: floresta apodrecida, tocamo-nos todos como as árvores no interior da terra, uma atrás da outra, floresta apodrecida, um remexer de treva, a terra treva remexe, põe-se a caminho a floresta apodrecida. Uma vida monstruosa, ouve-se a dor das árvores, sente-se a dor dos seres.

Uma tarde que viesse nas pontas dos pés, uma candeia em mão de mulher: claridade de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.

E o céu? Ponho o ouvido à escuta: palavras vivas através da paciência que desliza, mar inesgotável que desliza, som de água que desliza, o céu. Desliza. Muitas bocas, o céu. Estou só e a noite, vem a noite, vem, pausa e silêncio, a noite com outras noites em cima, inferno: uma camada de flor, um grito, outra camada de flor, outro grito. Também eu atravessei vivo o inferno entre o inferno e o sonho: dessa pata escorre sempre ternura. E o grito dos mortos... uma voz de palavras vivas: as bocas falam por muitas bocas as palavras vivas.

Uma tarde que viesse nas pontas dos pés, uma candeia em mão de mulher: claridade de primaveras extasiadas, flores desmedidas, uma candeia em mão de mulher.