31 de julho de 2012

Porque hoje é terça-feira

BALADA DO ROCHEDO DE HEFESTIÃO
Em Berenice, não em qualquer literatice,
Conta Poe do contado por Ptolomeu Hefestião:
Havia em meio do mar um rochedo
Que nenhum elemento debelava,
Alto, desconhecia o medo
E só à brancura da flor se curvava.
Mas porque os campos do Hades eram cobertos desse asfódelo,
Lírios como cristais de gelo,
Mas porque o álcool dele destilado
Conferia ao juízo o valor de um decapitado,
Mas porque crescia da mais apodrecida matéria
noutro jardim, o dos ossos, no cemitério,
Deram-no, triste sorte,
Por metáfora de morte.
Só Victor Hugo resgatou da escuridão das ervas o aroma de frescura jasminada:
O eterno verão crescido na sombra da noite estrelada,
A linhagem de David e do Cristo em Rute e Boaz desenhada.
Não é essa esguia figura plural, mórbida em pétalas de estilo
Onde se encerra a pureza do bem, o lodo do mal, isto e aquilo,
Que faz tremer o rochedo de Ptolomeu Hefestião,
É o poder calado, num sorriso fechado na palma da mão.
Igual, só a rosa que Bela pede ao pai, uma só rosa, encarnada
Em meio da neve de inverno, como se fora quase nada.
Uma rosa contra natura arranca ao olhar a feiura que afinal a Besta não tem.
Curva-se a Bela, curva-se a Besta e o treme o rochedo de Hefestião:
O amor, lírio ou rosa, é o segredo na alquimia do coração.