13 de julho de 2012

Notebook - hoje não


HOJE NÃO
Às vezes, logo cedo, penso: hoje não. Sento-me no cantinho do sofá e ele faz-se um barco enorme, o mar, a quinhentos metros de distância, aproxima-se, manso, convida, e a serra ao longe, olha, quieta. Pressinto o líquido embalo. É assim a minha janela: tem a mania de que o mundo lhe cabe dentro. Repito: hoje não. Lá no cantinho, o café é outro, falta-lhe a espessura da espuma colada nas paredes finas da chávena, tão boa de a tirar, ninguém vê, na ponta do dedo, e já o chão balança suave suave dissimulado, tudo é outro lá no cantinho, quero embalo, quero quieto, quero longe, janela fechada.

Hoje não. Não consigo. 

O corpo não me deixa mentir um bocadinho à cabeça, nem a ditadora da cabeça ao coração. Devia ser cartesiana, porém tenho tudo ligado como uma bomba. Já a vejo, ouço no púlpito, de megafone - são todos iguais os ditadores: se a energia falta, não é ficando à espera que ela volta, pasme-se, é gastando. Sabes, sim , sei, tudo funciona debaixo da regra natural, é um pulso de ferro a regra, densa, seja a energia, a alegria, o dinheiro, ou o amor. Hoje não. Não consigo. Consegues: Beckett. 

Hoje sim. 

Lá vou, mesmo sem conseguir, nenhum querer me puxa adiante, Beckett percebe-se melhor com os músculos do que com óculos de leitura, you must go on, I can´t go on, I´ll go on: yoga, nycb workout, ao fim nem o coração me falta, bate, forte, e o sorriso corre-me pelo cansaço com a transpiração. O sofá é um sofá, foda-se o sofá da manhã - às vezes, logo cedo, nem sei o que me dá, que estupidez. Mas viva o sofá da noite, o do conforto moldado à preguiça para filmes que já ninguém revê.

Fico sempre estupefacta. Com a maior parte das pessoas, na verdade. Todas são essencialmente qualquer coisa intangível: pensamento, sensibilidade, sei lá. Cá por mim, sou essencialmente um animal, se me privarem do corpo, aposto que morro. Toda. Por inteiro.