28 de julho de 2012

Mulheres


Gosto de mulheres. Não, não é o que está a pensar, raios, gosto de rapazes. Mas gosto de ver mulheres bonitas. Isto para não entrar em considerações de outra natureza: as minhas amigas são mulheres, a vida toda, mulheres, pode-se dizer sem mentir, sou uma mulher de mulheres.


Não é que não tenha amigos rapazes, tenho, porém é diferente, tem de haver uma distância, aquilo é uma raça que nunca se sabe excepto no que se sabe: por exemplo, quando uma pessoa se perde ou não consegue estacionar o carro entre dois, os diabos descobrem o caminho e estacionam mesmo sem espaço, com o carro a ganir apitos e sem bater – é um mistério. Há que reconhecê-lo: os amigos homens são dependable.


Claro que não sou um bom exemplo, sou do género de bicheza que está quase sempre sozinha com o cão, e gosta, dois bichos, portanto: trabalho sozinha, o cão tem paciência, vivo com o cão e é assim. Faço fim de semana para coincidir com o mundo, ver pessoas, e não, não trabalho ao domingo.


A verdade é que sou essencialmente egoísta: o tempo que tenho prefiro gastá-lo a escrever coisinhas, poemas, contos, não interessa o quê, escrever é o lugar onde tudo faz sentido sem ter de me preocupar com o sentido que faz. Esta deriva para explicar que sou um bocadinho, serei muito?, desviante. E gosto de mulheres.


No outro dia, cheguei a casa e estava a dar O Príncipe a Corista, na rtp 2, uma maravilhosa cópia restaurada. Só pela Marilyn, de branco, a recuar em direcção à porta diante da besta alteza, o filme vale a pena. Toda tão perfeita, tão crescida e tão bebé – como foi possível uma mulher assim? Benditos quilómetros de filme.


Pus-me a pensar naquelas miúdas que gostavam de ter o nariz daquela, o rabo da outra, as maminhas sei lá de quem. E se cortam todas de livre vontade na mesa do cirurgião plástico. Nunca quis nada que não fosse meu. Pois dispensava, ai não que não, os efeitos da passagem do tempo e da gravidade. Também dispensava rabo e pernão, mas não ia trocá-los à faca por um rabinho de um palmo. E a celulite, pronto, preferia que se deslargasse para o terceiro anel de saturno – e de que é que isso serve?, a ordinária não vai. Todavia o corpo também é isto de que temos de nos ir desapegando para educar o pensamento para a nojenta da morte. O corpo e a vida, no lado b, o das perdas de quem amámos tanto que não sabemos nem podemos desamar. Não queria a morte nem morrer nunca. Só aceito porque não tenho escolha. Gosto de mulheres.

Gill, fotografada por Sam Haskins