12 de julho de 2012

i - Histórias de Portugal


O CONDE DOM HENRIQUE - Uma casa onde morar

Os tectos altos, as paredes grossas, as pedras do chão frias. Nem as tapeçarias aqueciam a sala, nem a roupa lhe aquecia o corpo. Era este desconforto húmido que nenhum fogo quebrava que Henrique sentia enquanto do azinho bem seco estalavam chamas sem quentura. Mas sorria. As pernas separadas, os pés bem assentes, os braços dobrados, uma mão, a esquerda, na cintura, a outra no plexo solar, os olhos cegos ao lume que fixavam e abertos ao invisível. Sorria. Os finos lábios, cerrados, atravessados pela certeza, que é sempre doce, quem amarga é a dúvida, os finos lábios sorriam atrás da barba, atrás do bigode, e até os cantos dos olhos em finas rugas sorriam. Grandes mudanças varriam o mundo, mudavam o rosto do mundo, e o tempo, um novo tempo, o seu tempo chegara como a água à sede. 1096. Tinha trinta anos e sabia que navegava esta mudança: também ele seria nome de homem na boca do futuro. O futuro dormia na sua descendência. Sabia-o como sempre se sabem as verdades, como os animais conhecem os mapas da migração, como o medo sua a quem o tem e cheira a quem o vê. Sabia.

Há destinos que Deus escreve em conjunto e no livro divino, decerto, as linhas se sobrepõem. Assim acontece entre dois inimigos, entre dois amantes, entre dois amigos. A natureza de um só completamente se manifesta através do outro e até que se revele aquilo que aos olhos dos anjos é uma evidência, o amplo espectro da luz e da sombra em ambos, nem o crescimento súbito de uma montanha impede este rio de correr: o inimigo para o inimigo, o amante para o amante, o amigo para amigo. Henrique e Raimundo.

Henrique de Borgonha. Raimundo de Borgonha. Primos. Selados os dois um para o outro e a vida para os dois.

O Ducado de Borgonha era um país dentro de um reino, um útero de reis nascidos e por nascer, uma sala de poder, um feudo - e não será demais dizer que um animal de grande porte agudiza a fome, o vazio do estômago de outra besta. De facto, nem a anexação à França lhe alterou a natureza mantida independente até perto do fim do século xv. Era esta a casa de Henrique. Capetiana a sua dinastia, a terceira, a que sucedera à casa de Ivrea quando Oto morrera sem descendência. Oto, duque da Borgonha e também conde da Borgonha.

O Condado de Borgonha, casa de Raimundo, era um dos condados deste Ducado, vassalo onde o outro era senhor. Uma cozinha de ambição - a raiz burgúndia ajoelhava longe: batia-lhe o coração em uníssono com o do centro europeu, Austro-Húngaro.

Henrique e Raimundo, dois filhos da casa dos Capetos, sangue entrelaçado nas casas entrelaçadas, ducado e condado, filhos segundos ambos, sem lugar à mesa, uma migalha por títulos, outra por fortuna. Nem por isso os olhos deixam de querer aquilo que vêem, nada se prende com a facilidade com que se prendem os olhos. Assim, capetianos os dois, dos últimos filhos os dois, primos um do outro e com fome de reis, os escreveu nessa única linha a mão que tudo conhece.

Não será pois de estranhar que também os dois tenham tido a espada a serviço de Afonso vi de Leão e Castela, que tenham morto com gana o mouro que se interpunha entre quem eram e quem desejavam ser. Por recompensa a um, a Raimundo, deu Afonso vi a filha legítima, Urraca, e a outro, a ilegítima, Teresa. E mais veio a dar, depois, em 1096, o Condado Portucalense - feito dos territórios de Portucale e de Coimbra.

Porque a fome do primeiro não se saciava jamais, era preciso privá-la para a disciplinar: tirou da Galiza de Raimundo para dar a Henrique.

Mas se um era insaciável, o que era o outro? Pode-se conter o desejo de reinar, não se pode conter um reino.