1 de julho de 2012

Dois poemas e um texto para Paula Rego - um poema

(Há alguns anos, não poucos, sonhei, duas vezes, com duas telas de Paula Rego, entre as muitas, algumas imensas, que no meu sonho via cheia de espanto. Estavam ambas num atelier de grandes dimensões, parecia-me enorme, ou seria eu pequena, ou impotente, não sei, pé direito altíssimo, cangalhadas bizarras, teatrais, espalhadas: a luz invernal e mais nenhuma luz, silenciosa, oferecia abrupto contraste com a cor das pinturas e estranhos objectos. Senti ter entrado, penso que entrei, não no espaço da infância, mas, mise en abyme, diria Gide, não fora a música tão organizadora da violência da história adulta dentro da história infantil. Acho, sei, era Bach.

Das duas vezes, acordei dentro dessas duas telas para dois poemas já feitos: uma das pinturas existe, veio a existir, com algumas, grandes, diferenças, reconheci-a logo, a esta, a de Privilégio: a porta de entrada também é a porta de saída. A outra não existe, a do Poema do Atraiçoamento, não.)

PRIVILÉGIO
Não adormeças na morte das horas
Nem embales a noite que na alma se instala
no silêncio de uma vigília de segredos
Nem chames pelo teu próprio nome
às portas do espelho no país de Alice
para te devolverem inteiro o coração
- perna amputada que ainda se sente
Faz como se tivesses morrido
e agora caminhasses entre os homens
num privilégio que não te pertence mais
E verás como a vida se te oferece