1 de julho de 2012

ART ME UP

ANA VIDIGAL -  iv - AUSTERIDADE (E PEQUENOS SINAIS DE FUMO)
THE RING OF FIRE



Sobre esta exposição, Austeridade (e pequenos sinais de fumo), a decorrer na Galeria Municipal de Arte de Abrantes, e até dia 27 deste mês, nada li porque nada encontrei que não fosse o seu próprio anúncio ou o convite, todavia assisti a este vídeo-apontamento do Diário Câmara Clara, programa da RTP2. A exposição não tem catálogo. Apenas um registo. Não vem mal ao mundo: nem por isso deixa de lá estar, escrito a tinta invisível, não peça a peça, mas no todo que são os dois conjuntos formados por todas as peças expostas, tudo quanto Ana Vidigal quis dizer sobre a Austeridade (e pequenos sinais de fumo). Não apenas não vem mal como até vem bem ao mundo: quantas são as vezes em que os olhos podem beber livres a expressão e levar dessa água limpa ao pensamento?


A linguagem de Ana Vidigal não é parca, não é elíptica, nem sendo simbólica, é ambígua: é, sempre foi, exaustiva, minuciosa, explícita. Mordaz. Ridente. E anula a dúvida pela repetição compulsiva do assunto, do método, sobrevestidos ambos, camada sobre camada, só para despir até à última nudez: a da liberdade de seguir adiante: todos os trabalhos de Ana Vidigal são resolvidos durante o próprio trabalho, isto é, há um trânsito da experiência exploratória até à conclusão da exploração. Todo o caminho é feito, do planeamento à partida, da partida às conclusões temática e formal.

O que é o método senão o pensamento no seu rosto mais prático, aquele com que se vai ao mundo e à vida fora de portas e, às vezes, tantas vezes, dentro delas? Ana Vidigal, nos seus trabalhos, é como a cebola: está toda, está tudo, em cada camada, tudo é aproveitado, mas limpo até ao osso, e na última camada, ao centro, do centro, nada. A última nudez: o retorno ao vazio criador: o único caminho para o contínuo recomeço, curso no favor do tempo, quanto tempo tenho para dizer? Este tempo interno, feito do número exacto que a cada um nos coube de batidas de coração, tempo de vida, espada sobre a cabeça, talvez não seja o mais visível nos trabalhos de Ana Vidigal onde, os outros tempos do tempo são um eixo fundamental de compreensão, mas nem por isso deixa de ser o mais premente, o que empurra a criação adiante. Hoje. Presente. Viva. Agora. Quanto tempo tenho para dizer?


O lado austero da Austeridade exposta, aponta, não à pobreza, ao caminho em direcção à pobreza, às pobrezas, da fome à cultura, do comportamento à ética, do vazio de ideais à desesperança, pobrezas mostradas através da escassez dos recursos, poucos, utilitários, menores, como os dos dias deste dia-a-dia, ou, se preferir, nas palavras da própria artista: “É fazer o equilíbrio entre aquilo que estamos a viver (a austeridade) e aquilo que vamos ter de fazer para sobreviver.”

Este dias do dia-a-dia - eles, sim, um dos tempos maiores constituintes do eixo temporal de Ana Vidigal - que nos despojam, não apenas do hoje, também do futuro que se encolhe diante da impotência que aumenta e com ela a apatia do desencanto em alíneas visíveis: falta de esperança, atomização e solidão profundas e afundantes. Pulverizados, desumanizamo-nos: só somos em relação, coesa na identidade, plural nos valores. Desumanizados somos pasto de totalitarismos, conformados, enformados, somos o risco e o perigo de uma Europa que já nos viu, mais de uma vez, usar esse ser de horrores que temos pelo lado de dentro do desespero: se não há um eu que sonha, um ideal de nós, não se constrói esperança, constroem-se ideários. Quais? Que vamos ter de fazer para sobreviver? Usei-me. Que deixaremos que nos façam para sobrevivermos? Não deixei que nada me usasse. Não deixaremos?



No lado dos Sinais de Fumo está, acima de tudo, mesmo por cima do que já arde e avisa do seu fogo, o desejo, o desejo de diálogo, o estabelecimento de relações afectivas e pensantes, evitadoras do fim. Dos fins. De que fins? De quaisquer uns da matéria do que não deve findar: o indivíduo livre, o tecido social vivo, irrigado e pulsante, o íntimo amor. Aqui, nos Sinais de Fumo, a linguagem faz-se de outros vocábulos, os roubados à infância, onde a vulnerabilidade se mostra, porém, vocábulos intervencionados pela lucidez adulta, e mesmo cortante, da afiada língua adulta, do penetrante olhar adulto, onde igualmente se mostra a potencial impermeabilidade, fumo aviso de fogo. Retornam o jogo receptivo-activo, e a dualidade feminino-masculino: esperança e fim dançam juntos, sobre uma linha tão fina.

Austeridade (e pequenos sinais de fumo), são mais que austeridade e pequenos sinais de fumo: são código ancestral de comunicação extraído do fogo controlado. Mais uma vez a sobreposição de Eros a Thanatos, um dos mais belos traços da mão de Ana Vidigal.




Nota: THE RING OF FIRE, título que dei a este texto, foi roubado ao de uma canção popularizada por Johnny Cash.