30 de julho de 2012

A de AGRIPINA


AGRIPINA

Agripina, bisneta do grande César Augusto, sobrinha bisneta de Tibério, neta de Lívia, filha de Agripina, irmã de Calígula, mãe de Nero, e ao fim, mulher do seu próprio tio, o irmão do seu pai, o amado general Germano, mulher, dizia, do imperador Cláudio. Agripina e tantos nomes para chegar a um só e mesmo lugar: ao poder. De facto, sim, mas é pouco, há mais. Dizer chegar ao poder é uma adequação, um modo ajustado de não dizer inaceitáveis verdades extemporâneas, sem mentir.

Por isso. Agripina, bisneta do grande César Augusto, sobrinha bisneta de Tibério, neta de Lívia, filha de Agripina, irmã de Calígula, mãe de Nero, e ao fim, mulher do seu próprio tio, o irmão do seu pai, o amado general Germano, mulher, dizia, do imperador Cláudio: tantos nomes para realizar um só destino.

Sim, estes são os Bórgia. Estes são sempre os mesmos. Se outros, de facto, ou não, nunca saberei, noutros dias do mundo, sim, pelo menos, cronologicamente, parece que sim. E nem sei bem, a esta distância, se indivíduo é coisa que exista no sentido de fado, ou quantos são necessários para que um seja, um faça – bem, à partida, pelo menos três: pai, mãe e filho, retire-se qualquer uma destas unidades, e impossibilita-se as outras duas.

No ano 59, Nero era o imperador e Roma era grande. Até então, e sustentado por dois pilares, Séneca, filósofo agudo, e Burrus, dono da disciplina militar, e contido pelo pulso de sua mãe, governara bem por ausência de participação no governo, apenas deleite no usufruto das extremadas regalias de quem o representava. Do barroco à decadência chega-se por um sopro de ar quente demais. Pode nunca acontecer. Porém, está lá, está inscrito na matriz, linha gradativa com um ponto de não retorno, como todas, como a da própria loucura, navegação sem homem de leme pelo dessentido.

Tudo estava prestes a mudar, mudaria já já, antes que o ano 60 entrasse - estava a mudar em cada passo que Nero pisava em direcção a sua mãe.

Que calor. Ninguém diria que eram os últimos dias de Março. Não teria sido melhor no salão, o que agora atravessava, aberto ao ar do fim da tarde? A passarada cantava a última luz nas árvores do jardim e logo cairia o silêncio, depois a noite e amanhã, o novo dia. O novo Nero. Que calor. De facto, teria sido melhor. Tinha que pensar em tudo, ele. Não, não iria internar-se nos quartos mais adentro. Que a trouxessem ali. É que tinha de pensar em tudo.

Veio Agripina. Estava drogada e sorria. Quem mandara que a drogassem? Haverá alguma amantíssima mãe que repudie a visão da própria maternidade? Seria esse o presente de despedida que lhe ofereceria, e a si mesmo, a contemplação do mais sagrado dos lugares, o berço de um deus. E ela drogada. Que maçada. Um só gesto de cabeça: assentiu. De lâmina na mão, Plínio, o físico, nada.
- Abre!

Uma linha vertical num golpe fundo. Agripina, sua mãe, seu berço, agonizava de entranhas expostas no estupor de um sonho: uma enorme cabra dourada pateava a sua casa de juventude no monte Palatino e comia-lhe as pedras que se soltavam. A cabeça descomunal da cabra aproximava-se agora do seu rosto. Cheirava a sangue. Mastigava.
- Tem a pupila toda dilatada! Nem me reconhece. Que droga lhe deste?
- Nenhuma. Há-de ter sido misturada na refeição por algum dos fiéis que tem.

Depois do matricídio, assassinato fundante, todos se seguiram sem culpa nem horror, e até com um sentido prático, mesmo comunitário - ele gostava de pensar que sim -, não apenas exemplar e dissuasor, também prático: não estavam as perigosas ruas escuras, escusas, da cidade, sujas, esplendidamente iluminadas por cristãs tochas humanas? Até cheiravam a porco assado, o que disfarçava os odores de lixo e enganava a fome. Ainda que Nero gritasse se o picassem qual cavalo, não se incomodava de picar um cavalo. Gostava, e não era porque o cavalo o picasse, nenhuma lei de Talião. Era porque sim, até porque a dor dele não era uma porta aberta para a compreensão da dor dos outros. Gostava porque sim. Infligi-la quando lhe apetecesse, dava-lhe prazer, e mais prazer o constante temor em seu redor. Não era esta superioridade intangível ao entendimento a matéria dos deuses, não era este o humor dos deuses, volúvel, despótico? Disto, e de tanto além disto, deu conta por escrito Tácito - quem escreve sabe: o que contamos não é uma evocação da história nem do tempo, nem são histórias, é a conjugação do verbo ser: somos. Toda a memória é, pode ser, a qualquer instante, futuro. Como toda a imaginação é, pode ser, a qualquer instante, realidade. Não há fronteira entre o eu e o tu mais intransponível do que a pele que nos veste, e esta é porosa.

Foi então que Agripina o chamou pelo nome mais doce:
- filho.
- Mãe, ó mãe, vês o que fizeste? Decidiste a tua morte. Traíste-me.
- Nenhuma mãe trai um filho. Uma mulher pode trair um amante, um marido, pode-se trair o imperador, não um filho.
- Tu traíste-me.
- Não sabes nada. Não te ensinei nada? Eu dormi com o meu irmão e as minhas irmãs, e ele manteve-me no seu favor. Eu tive os direitos e privilégios concedidos apenas às vestais, a maior liberdade de uma mulher. E o meu nome constava das saudações oficiais ao imperador. O meu rosto foi cunhado em moeda. Nunca tal antes de mim. Não houve cabeça que não baixasse à minha passagem. Corre em mim o sangue de Lívia: os obstáculos são o único espelho onde podemos ver a medida exacta da nossa força. Quando a minha irmã Drusila morreu, o nosso irmão enlouqueceu de desgosto e exilou-me, a mim e a tua tia, para não mais se lembrar do perfeito amor que, para ele, éramos nós os quatro. E nem o exílio me impediu de voltar, de casar com a fortuna de Gaio e de fazer de ti e de mim os herdeiro dele, nem isso foi motivo para não me fazer viúva e melhor casar com Cláudio, o imperador, teu tio avô. Eu fui imperatriz. Declarada Augusta em vida de Cláudio. A terra onde nasci traz o meu nome e isto nunca, por mulher alguma, isto jamais aconteceu com outra. Tornaste-te Nero no dia em que Cláudio te adoptou. Quem eras tu antes dele? Quem? Domício, filho de Domício. Ninguém. Custaste-me caro em influências, acusações, em vidas. Não o lamento, mas quem eras tu se não te tenho dado esta filiação? E nem ela me impediu de envenenar Cláudio para te reservar o trono quando ele, de repente, influenciável, sempre, a vida toda, voltou a querê-lo para o próprio filho, o filho de Messalina - de Messalina, que me deu um público estalo na cara… depois de tudo, o meu tio queria o trono para Britânico. Patético.
- Tu traíste-me.
- Não te traí. Fiz-te. Iniciei-te, e amei-te melhor do que qualquer mãe. Mas durante quanto tempo mais poderias continuar a frequentar a minha cama debaixo dos olhares de Roma quando nome de Calígula, o teu tio, meu irmão, ainda é cuspido por incesto? Essa gente não nos percebe: há que atirar-lhes uma côdea de pão: enquanto os estômagos estão cheios, não há sublevações; e há que fazer que se ouve para que se sintam importantes. Há que parecer respeitar os costumes, mesmo aparentar ceder nas pequenas coisas. E tu acusas Séneca, o teu mestre, e Burrus?! O tecto do meu quarto desabou. O navio onde viajava, naufragou, e foste tu: a minha mais leal serva passou-se por mim e morreu às mãos do teu mandante, afogada ao largo de Nápoles. Que me matassem. A mim! Não sabes nada, não te ensinei nada. És filho do teu pai, és um fraco.
- Mas mãe, olha para ti agora: aprendi tudo.

Nero dissecando sua mãe, da edição de Jean Sans Peur  de De Casibus virorum illustrarium, por Giovanni Boccaccio - British Library


Letra A, de um inteiro alfabeto feminino todo dedicado a Agustina Bessa-Luís, escritora maior.