16 de junho de 2012

Porque hoje é sábado

VAMOS DANÇAR, AMOR, ESTA NOITE

Enfiava-te fundo uma faca só para ver teu sangue correr
com todos os clichés de sangue adjectivo em hemoglobina de papel:
vermelho quente, vermelho espesso, em golfadas pela página.
Ficávamos contentes, eu e o meu ciúme de lâmina afiada -
outro cliché, mas de romance de cordel, encantamento de putas e de puras.
Também podia ser na ponta da tesoura,
de vestidinho fino de flores com a inocência dramática
das meninas de bordel, de colégio, de cordel.
E se, em mágico realismo, das vísceras te jorrasse petróleo viscoso,
vistoso jorro mágico que me salpicasse as pernas de preto,
gostava tanto, gostava mais, batia palmas felizes, sempre de criança,
nem o limpava dos saltos dos meus sempre sapatos altos de mulher, agradecia:
obrigada, querido, das tuas entranhas à mostra nasce o meu combustível,
enquanto olhava bem dentro dos teus olhos de surpresa esbugalhada de peixe -
os clichés são sempre de olhos nos olhos, dentro dos olhos, o olhar dos clichés.
Assim, seria femme fatale de romance negro em bd,
loura de dúvida para detectives enrolados em fumo,
e sozinha esperaria a certeza, de lábios vermelhos, decote agudo onde há pouco a golinha,
tomando teu pulso com o desprezo nas pontas dos dedos, loura ainda, deixava-o cair:
estás morto e bem morto, havia de rir o riso decotado: ah ah ah… já está!
Abria a porta, saía para a luz,
bebia 605 Forte sentada no degrau de cordel
alisando as florinhas da bainha, outra vez menina de redonda golinha
entre soluços sufocados de lágrimas - se o desgosto é muito grande,
o corpo cliché não fica de pé.
 Quando ao longe ouvisse o fim em sirenes da polícia,
tarde, é claro, de tarde cliché demais,
o coração despido, ó nu, apenas músculo vital de nós,
havia de me pensar contigo no meu último pensamento:
levas-me, amor, a dançar esta noite?