26 de junho de 2012

iii - Para Borges, ao serão

Pequeninas histórias para o serão de Borges.
O HOMEM, O CÃO E A ÁRVORE
Explicaram-me, não percebi se o mundo se a civilização se a inteligência, assim: um cão não sabe que é um cão, uma árvore não sabe que principia e acaba: estas são as diferenças entre nós, que nos sabemos e sabemos da vida e da morte, e o resto.

Não sei do pensamento dos cães algo que os impeça de se reconhecerem cães ou, avessamente, favoreça tal discernimento. E talvez os ramos das árvores não cantem a sequência de Fibonacci, 1, 1, 2, 3 5, 8, 13, 21… enquanto a reproduzem na angulação da folhagem para a melhor eficácia na captação da luz. Outras simplicidades divinas derramadas pela natureza sob a forma de regra há, descobertas ou por descobrir.

Mas sei que desde que o homem é homem vive junto de outros homens, de cães e árvores. E desde a mesma data, um ou outro homem se afastam e partem para viver na solidão das grutas e nelas abrir memórias identitárias, afagos divinos ou fúrias a que chamam revelações e são sempre as mesmas. Quatro patas e uma sombra verde por companhia, às vezes de quarenta dias, às vezes de quarenta anos.

Para quê subir à montanha e mergulhar na escuridão da gruta a juventude da alma – não é perfeita a língua portuguesa que que permite à alma a ascese da  lama só com a mínima alteração toponímica das primeiras vogal e consoante, e assim desenha o círculo do significado em tão pouco esforço? Para quê subir à montanha? Não é óbvio que só precisa de se separar o que está unido? E no entanto afastam-se, partem. Se a natureza é una, a separação é ilusória. Apesar da mais funda solidão de nascer, viver, morrer, não há o homem só como não há alma sem lama.

Ninguém, afinal, sobe à montanha e desce à gruta para viver a verdade, apenas para reconhecer a mentira. Os poetas sabem disto que místicos e santos trazem à carne como eles ao verso - os cães e as árvores talvez saibam, ou não: toda a vida é santa, até o pecado é santo. Por isso regressam os eremitas à comunhão com os homens, e não fazem distinção entre a besta e a flor. Dos calcanhares cai-lhes a cada passo a lógica do amor que é a subversão da, de outro modo inquebrantável, lógica da natureza: deixam-se matar ou ressuscitam mortos, ou nascem-lhes rosas na menina dos olhos e vêem anjos, ou falam a língua dos pássaros por conhecerem, da matemática das esferas, música, o fonema primordial.