25 de junho de 2012

ii - Para Borges, ao serão


Pequeninas histórias para o serão de Borges - com agradecimento ao impressivo Blade Runner.
RACHEL
Era uma vez o futuro. No futuro, era uma vez um homem. O homem do futuro era historiador, especialista no século xx, coleccionador, casado, pai. Era um homem como se fosse de hoje, não fora ser do futuro: não era novo nem velho, não era alto nem baixo, não era gordo nem magro, não era bonito nem feio, não era rico nem pobre. Nos tempos livres continuava o trabalho, enfiava-se na sala que era mais dele, a alinhar o raciocínio de documentos passados, debaixo do olhar das bonecas também alinhadas na prateleira. As bonecas da colecção de bonecas: de cartão, de porcelana, de plástico, de borracha, de silicone. Vestidas de papel pintado, de algodão, de seda. Articuladas por um fio ou pela mecânica. Mudas e de lindos olhos redondos de cristal. Falantes de gravação. Louras, morenas, ruivas. Na prateleira. Nem muito pó nem muita atenção: era um homem como se fosse de hoje, tinha querido uma de cada vez enquanto não queria a seguinte.

Um dia, no futuro, era noite como as noites são. O homem beijou os filhos já adormecidos e entalou-lhes a roupa da cama no corpo para os aconchegar num abraço apertado. Deitou-se, sonhou e acordou febril. Levantou-se, foi à salinha que era mais dele, pregou o pensamento na prateleira, tirou as bonecas uma por uma, espreitou por baixo dos vestidos, passou-lhes a mão nos cabelos, avaliou braços e pernas, voltou a alinhá-las, sentou-se à secretária e desenhou os planos de uma boneca como a do sonho que tivera. Não era engenheiro, mandou construí-la - coisa fácil no futuro daqui a muito tempo, até a densidade da carne na pressão dos dedos é fácil como escolher no hoje a macieza ou a tensão dos colchões.

Levou a boneca para casa, instalou-a no sofá e ligou-a. Ela cruzou as pernas, ajeitou o cabelo atrás da orelha e sorriu-lhe.  Ele também lhe sorriu e estendeu-lhe a mão, então, ela a dela. Como lhe tinha desenhado o cérebro, punham-se os dois a alinhar o raciocínio de documentos passados debaixo do olhar das bonecas também alinhadas na prateleira. Quando o homem se ia deitar, a boneca também ia, deitava-se ao lado, punha a cabeça no ombro dele, o braço por cima, a perna, outro aconchego, a cama era larga, cabiam três, a mulher, do outro lado, não se importava, era só uma boneca.

Um dia, no futuro, era manhã como as manhãs são. O homem beijou a mulher, bom dia, querida, levantou-se com o sol que ainda é o mesmo de hoje. A boneca, na cozinha, já lhe tinha feito o café. E estava pronta para sair. 
- Onde vais? - perguntou-lhe o homem, espantado. Não podes sair, os teus circuitos electrónicos desligam-se além da linha da porta. 
- Vou-me embora. Tens outra Rachel na cama, eu só te tenho a ti. 
- Tu és a Rachel, não há outra igual, és única. Ela é minha mulher. Tu és uma boneca. Inventei-te a partir de um sonho que tive. 
- Tonto, és um tonto. A ti, quem te fez sonhar? Não foi quem te sonhou?