12 de junho de 2012

i - Para Borges, ao serão



Pequeninas histórias para o serão de Borges
A PRETO E BRANCO
A suite era boa. King size bed. Os americanos fazem-nas grandes, mas não as sabem fazer tão ninho onde o coração se aquieta de aconchego e o corpo se afunda em prazer morno, respirável lago materno, como aquela gente ao mais a norte da Europa que faz os quartos pequenos e as melhores camas para dormir, amar ou morrer – se há alguma diferença, ele não tem a certeza, o que sabe de certo é que suspeitando-se ainda vivo, precisa de apanhar uma bebedeira mansa, uma que lhe envenene o cansaço logo ali à boca das veias que nascem debaixo da língua, uma daquelas em que a tensão se vai evaporando, lenta, dos ombros, até se colar ao tecto de onde só descerá na manhã seguinte.

Tinha tirado o casaco. Não usara gravata. O fim-de-semana enfiado no hotel: conferência, debate, negociação, discussão, reunião, estratégia, regra de regras, general debaixo do peso das dragonas, mas a sorrir, leve, camarada, no coffee break, no corredor a caminho do almoço, no cocktail, o toque amistoso, o braço por cima do adversário, vantagens da altura, e sabia tirar partido de todas as que tinha, eram muitas, eficaz, e ali estava, na suite. King size bed. De camisa, calças e meias. De preto da cintura para baixo, de branco da cintura para cima: dividido ao meio como desde o dia em que nascera, não para que se lembrasse que no buraco da luz mora a sombra, isso sabia de cor, era lúcido de uma lucidez crónica, cor crónica a preto e branco, e ali estava em pé, de meias, os sapatos perto da cadeira a fazerem o velório ao casaco. Na casa de banho, o duche corria e a névoa sebastiânica, Sebastião, chegas?, pensara, dissera alto e rira sozinho. Todavia ainda ali estava de meias e com o cheiro das salas fechadas e do ar condicionado fechado entre a pele e camisa. A barriga macia, nem uma palmada nem uma festinha, aquele gesto só dele, nenhuma proeminência, talvez fosse um gesto de afectuosa aprovação. Ou não. O peito largo de quem sabe encher os pulmões de ar e viver, pernas bem proporcionadas, dedos longos, a cabeça de feição antiga, sólida, arguta, dissonante do sorriso, inocente.

Um mundo cheio, dias cheios, cheios daquela matéria perfeita onde cabe muita imperfeição. Outro nome para equilíbrio. Não fora o desequilíbrio.

King size bed e a carne tão só de nenhuma uma só carne, tão só do outro si mesmo. Como? Se amava, era amado, e os filhos, porra, os filhos, um poço sem fundo de ternura líquida para se afogar no silêncio de tanto amor e de tudo quanto há nele, química cardíaca pura, da saudade à rendição, tudo, todos elementos da tabela periódica: o poço, o único lugar inteiro e nu, como inteiro e nu saíra da água pelo túnel e entrara no mundo no dia em que nascera. E a merda da garrafa de whisky que não chegava – sempre gostava de saber porque é que lhe calhara um quarto provido de um bar completo, e com esta falha irlandesa. Caralho, pá.

Olhou para o cinzeiro, duas cigarrilhas. Não, não ia fumar outra. Acendeu um charuto e a sincronia acendeu-se: empregado e garrafa à porta, abre-te sésamo. Abriu. Tirou o cinto, encontrou o caminho dos botões e assim mesmo, desabotoado a meio, desfraldado a meio, tudo meio, tudo ao meio, meio da vida, a meio caminho de casa, meia vida vivida pela metade, a convencer-se que adiava a outra metade para depois, havia um plano, tinha um plano lá no cofre do pensamento, o x marca o local, cavaria e teria o tesouro, quando sabia muito bem, que não, claro que não, não mesmo, quanto muito faria um pequeno detour, um bypass, previsível, medido, eficaz como era da sua assinatura, nenhum tesouro, uma pérola de cultura: a trela que usava era curta. Foda-se, não tivera escolha. Alguém tem? Quando Salomão decidiu: cortem ao meio e entreguem metade a cada uma das mulheres que reclamam a maternidade, ninguém o amou em alto e bom som o que sempre o amor diz. Fora assim, vivia com a morte, como toda a gente, é certo, mas muito mais à flor dos olhos, rasa nos olhos até ao fim do mundo onde nasce o mar escuro.

- De que cor é o mar?
- Azul.
- Pateta, é da cor dos teus olhos.

Não sabia porquê, viera-lhe à memória esta memória e, de repente, a vontade de se vir. Mais logo, com um bocado de pornografia que filtrasse estes fios de plâncton, sentimentos à deriva. De que cor é mar? Sentado no chão, cheio de fumo, o cheiro seco, levemente acre na única linha de humidade desprendida do crepitar íntimo do tabaco dentro, em brasa - bom charuto, quente, ia já já levantar-se e meter-se debaixo do duche quente, deixar correr, e continuava sentado, ela enfiava-se-lhe na boca enquanto puxava o fumo, dançava-lhe na língua molhada de whisky, que tesão do caraças, foda-se, quase a ouvia dentro do ouvido, a chamá-lo pelo nome, baixinho, quase nem a ouvia, as pestanas muito curvas, pretas, pretas, finíssimas, os olhos fechados, baixinho, a respiração mais funda, a chamá-lo pelo nome, a pedir:

- beija-me.

Viera-se como um adolescente – filha da puta. Na casa de banho, à frente do espelho, pode confirmar que tinha os olhos castanhos de sempre. Filha da puta. Ali estava ele, nu debaixo do duche, e o pensamento nela a debicá-lo, ou era a força da água em agulhas finas nas costas? Rodou o manípulo para um jacto suave. Não gostava de sobressaltos, quem gosta? Tudo o que excita, excita e cansa, portanto, logo pede escoamento pelo ralo e pelos dias. Não suportava injustiça. Na verdade, ela era estável como uma fundação. Porém ele ficava em sobressalto. Só muito tarde percebera porquê: uma tarde, passeavam. Nada de especial, na juventude do tempo havia tempo, céu claro, mar perto, prazer de mãos dadas. Encontrara o mestre, que diferença há entre o mundo e um dojo?, cumprimentara e apresentara-a. O mestre sorriu até aos olhos, assentiu e disse-lhe: 

- muito chi, onde toca dedo mindinho, roda tudo. Menos o dedo. Casal perfeito.

Por isso, anos mais tarde, escolhera bem, fizera o que devia: casara a favor da mãe, na rede da família, segurança e impulso para cima. Menos chi. Menos movimento. Nem poderia ter feito outra coisa. Alguém tem escolha? Afinal, a mãe não abrira a boca diante de Salomão. O amor era condicional. Mesmo o dele também era. Excepto o do poço, com os filhos que segurava nos braços, incansável, os filhos nos braços, seguraria sempre os filhos nos braços ainda que rasgassem de esforço, não suportasse mais, seguraria. Mesmo o dele era condicional. Além do que a mulher, era uma mulher que faria tudo, fazia, o que se esperava dela, afinal, era a mãe dele porém sem a autoridade para que ele fosse, e ele era, o pai. Com a vantagem de que era uma mulher sem a identidade revelada, não sabia quem era, era o que lhe tinham dito que era. Não há, não pode haver melhor: viver sem oposição e sem opôr resistência, vestir e despir os papéis como antes as bonecas. Era uma boa mulher, forte, amava-o porque pensava que o amava, amava-o em pleno desconhecimento do que é o amor e de quem ele era. E isto é o paraíso nunca perdido, Eva e Adão na felicidade e no trabalho dos dias. Ele feliz. Ela decerto. Adão e Eva. Quando a trela o puxava com força, menos um pouco, e trela puxava em cada vez que jogava o olhar à maçã que Eva nunca lhe daria a provar, e à outra metade, preta, preta, finíssima, o lado por cumprir da vida que trouxera para viver, o que enrugava e encolhia a cada ano, um crescimento ao contrário: cada vez mais velho e cada vez mais filho. Sabia-o porque era cada vez mais pai. A água do duche ainda o molhava quando jogou a mão ao pescoço e, para sua grande surpresa, duas voltas de cordão umbilical, ainda vivo e em morrente continuidade, azul. Azul. Pateta.