28 de junho de 2012

ix - Ces petits riens

iii - C´est quoi la poésie? A poesia não é das páginas dos livros - não se faz na tipografia. Ainda que seja nas páginas dos livros que se fixa depois de a tipografia lhe dar um corpo de papel - é sempre de amor que se faz um corpo, é por amor que se dá, não é? A poesia é da vida. É de quem tem. E é de quem lê.

É coisa da luz nas escamas transparentes do peixe: sólidas gotas de água polida, coladas na lâmina da faca de amanhar das cirurgiãs da lota, da praça, atrás das bancadas dos hipermercados, calçadas com galochas de mundo acabado de nascer no mar, e com os chuveiros do nosso duche da manhã, na mão, a regar-nos o jantar, a tirar-lhes as barrigas - e nós todos mexidos por dentro daquela futura refeição, o nosso corpo de peixe escamado, e  cravado a faca, corpo limpo a bisturi. Decepado. Escalado. Sabe Deus como o nosso corpo de cada dia. O chuveiro lava,  leva na água suja das barrigas, pelo ralo, as tripas e o desgosto, escoados, o lugar onde tudo amarga. Às vezes, é à faca que a faca entra. Deve ser por isso que bons poetas fazem, nessas vezes, maus poemas, ou muito bons, à faca: vai fundo de mais a lâmina afiada demais, limpo de mais até ao osso - é que é preciso resistir, quando é muito, para não morrer: resistir à força do poema que se escreve sozinho na ponta do bisturi, por dentro das barrigas vazias, limpas demais, pode uma pessoa partir-se em bocados, de tão funda ir a lâmina, afiada. Se a faca for demasiado fundo, não se colam as polpinhas a tempo do jantar. Nem do poema. Ou da vida.