21 de junho de 2012

ART ME UP


ANA VIDIGAL - i
WHO THE HELL ARE YOU

Ana Vidigal, Secura de boca depois de arfar, 2009, técnica mista sobre papel

Com quem fala Ana Vidigal nas notas quase de rodapé das suas telas, letras uma a uma riscadas por dentro da régua, a caneta, a bisturi quando cortam, e quando colam, a quê?, firmes e certas como um passo, marcham, a quem grita enormes letras ao centro do centro de gravidade alterado pelo peso pintado das palavras, para quem a sombra que assoma em voz de minúsculas, qual lápis fino, quase fumo, num título, às vezes penso com quem andarás a dormir. Fala com ela mesma. Consigo. Comigo. Fala com todos os que alguma vez se perguntaram: com quem andarás a dormir. E com aquele tu de carne ou ficção que dorme saberá Deus com que concreto ou inconcreto quem – ainda que a autobiografia, se a houvesse, não fosse mais do que o ponto de partida, mitologia pessoal, pois à chegada, na peça que criou, estamos todos. A Ana Vidigal tem a Ana Vidigal por interlocutor. E tem por interlocutores que não lhe falam, nós connosco. Mais: ela connosco. E de somenos: eu contigo.

Ana Vidigal, Pensas que o sexo terá importância, 2009, técnica mista sobre papel

Sim. Se uma pessoa fosse um número, a Ana Vidigal seria um 2, nem que fosse o do eu ao espelho. Quer dizer, ela ao espelho. Nós em diálogo nem que seja monólogo. Integrador? Menina Limpa Menina Suja na antologia onde mais se viu o fundamental rodopio do tempo, tempo maiúsculo, tempo capital. Tempo: o ontem é o hoje processado em busca do ontem? Que ontem? Que hoje? Ou será em busca do futuro? Ironia colorida a kitsch, poesia desenhada a pop? A pintura também tem humor – e humores.

Ana Vidigal, A woman´s work is never done, 2002 

O ontem da casa, lugar da família, lugar de mulher, o do homem é o trabalho, ontem do quê e de quem, afinal?  Quando, como começamos a ser, onde? Ontem, sempre ontem, com os nossos pais, na família, na casa. As casinhas. O que é um presépio, quem vive no presépio das casinhas de presépio? A representação do espaço íntimo, é um espaço social, no rodopio do tempo. É. E a mãe, o pai, são o homem e a mulher. São. E a casa e o atelier, dois mundos. 2. E assim, do eu para o tu que somos nós, onde o passado infantil converge com o adulto do presente que o aborda, a Ana Vidigal transita do indivíduo que é para a artista que é – casa e atelier. E perguntando ao ontem que fomos, linda, linda Anita, linda a cozinha de Anita, perfeita dona de casa, imaculado avental sobre o vestido, lindos de se comerem com os olhos os desenhos lindos como cerejas, um atrás do outro, pergunta quem podemos ser hoje, amanhã. Quem, quando as regras forem o desuso das regras de hoje como as de hoje são a liberdade das de ontem?

Ana Vidigal, Twin Peaks, 2006

Pensando nisto, formalmente, talvez não, não seja integrador o monólogo-diálogo. Ou talvez sim. Inclino-me para o não. Emparelhado – afinal, até os modos de ser na arte são 2, e não é porque já se aproximam, têm vindo a aproximar, que são um. E, também, a resolução não combina com a criação da Ana Vidigal porque é uma forma de escoamento, tende para o fim e para morte, resulta, nela, e apenas, na conclusão do objecto, ou dum conjunto de objectos, exaustos de exaustivos, telas, uma outra outra, a reorganização da organização da desordem, cortes sobre recortes, cola cola cola até ao limite do verniz, simplesmente maria, simplesmente verso, simplesmente palavra recortada, reconto de um conto mil vezes contado, o único que interessa ouvir. Cortar é separar: distância. Colar é juntar: proximidade. 2. E outra vez. De outra maneira: quantos babetes alinhados, aninhadas no peito quantas batidas do coração, o que é um pai, quem é um pai na ausência, todos os pais se fazem pais no regresso, Ulisses, quando os filhos na praia se fazem Telémaco e os chamam, voltam. Penélope espera. Mas é o filho quem chama. E só assim regressa Ulisses. Outra vez a ordem sobre o caos em cada roseta de cartas fechadas em envelopes envoltos em plástico, rosetas ligadas por agrafos, fechadas por agrafos, nada se solta, a colcha cobre a cama tal como as palavras cobrem, vestem a ausência e a nudez tão nua, dois corpos que não se encontram ainda assim se correspondem: respondem um ao outro. By Air Mail. Par Avion. O céu é cor de envelope. E o amor também. Como se arruma a distância se não for pelo quotidiano? Não, Thanatos não domina. Serve a Eros. E ao conflito. Recolhe. Junta. Organiza. Espera. Corta. Desenha. Risca. Pinta. Recorta. Cola. Escreve. Enverniza.

Ana Vidigal, Penélope

Nem na opressão da fita cola, não sei, celofane, tenso, tão tenso e não rasga, nem é rasgado, os peluches não têm unhas, de tanta macieza, não têm, de não terem, podiam sufocar, que perigo: há donzelas fechadas em castelos de lã. Há horrores ali, se quisermos, fábricas de abusadores transparentes, fábricas de vítimas tenras. Sim, é isso, tudo 2. Bem, quase tudo: o processo criativo é um.

Ana Vidigal, (Des) animados, 2000

E as coisas. Só as coisas - palavra bela e boa. Coisinhas também. Uma das melhores para Agostinho da Silva. Pessoa gostava muito. Outros. É talvez uma das minhas palavras preferidas. Calha mesmo bem: a Ana Vidigal faz coisas, e entre as minhas preferidas, uns corações de ex-votos, de cera, coisas, lá está, de quem pede pela vida e lha dão e sinaliza a dádiva a cera de obrigada: carregados de tachas e são luz que nos ilumina de felicidade, despidos e são nada de tão sós, à varanda numa janela de insónias são música de vento, vestidos de preto, tanta saudade.

Ana Vidigal, Lustre?

Digo o mais que falta, quase tudo, noutro dia.