30 de junho de 2012

Não tem coração. Ó.

Cabeça de Cão

3. DON´T WHINE. WIN.



(We all lose some: don´t whine, replay the game in your mind as if you hadn´t been a part of it. See how you´ve failed - one minute of fucking whining, one minute of rage. Relax, have some wine. Reset yourself anew: change, adapt and develop. It ain´t over ´til it´s over.)

Bonjour Mundo!

we go together like
rama lama lama
ke ding a de dinga a dong
lailailailailai
shoo bop shoo wadda wadda yipitty boom de boom
lailailailai
that's the way it should be
wha oooh yeah!
lailailai lailailai lailailai
yippitty boom de boom lailailailai
é sábado é sábado é sábado viva sábado VIVA!

29 de junho de 2012

Não tem coração. Ó.

Cabeça de Cão

2. DON´T  BE BAD. BE BOLD.

Bonjour Mundo!

high on a hill lailailailai
lailailailai
odl lay ee old lay ee
odl lay hee hee odl lay ee
odl lay odl lay odl lay odl lee odl lay odl lee
odl lay odl lay odl lay
hoo


28 de junho de 2012

Não tem coração. Ó.

Cabeça de Cão

1. DON´T  BE SAD. BE STRONG.

Bonjour Mundo!

lailailai
he had it coming
he had it coming
he only had himself to blame
if you'd have been there
lailailailai
i betcha you would have done the same
lailailai
he had it lailailai

ix - Ces petits riens

iii - C´est quoi la poésie? A poesia não é das páginas dos livros - não se faz na tipografia. Ainda que seja nas páginas dos livros que se fixa depois de a tipografia lhe dar um corpo de papel - é sempre de amor que se faz um corpo, é por amor que se dá, não é? A poesia é da vida. É de quem tem. E é de quem lê.

É coisa da luz nas escamas transparentes do peixe: sólidas gotas de água polida, coladas na lâmina da faca de amanhar das cirurgiãs da lota, da praça, atrás das bancadas dos hipermercados, calçadas com galochas de mundo acabado de nascer no mar, e com os chuveiros do nosso duche da manhã, na mão, a regar-nos o jantar, a tirar-lhes as barrigas - e nós todos mexidos por dentro daquela futura refeição, o nosso corpo de peixe escamado, e  cravado a faca, corpo limpo a bisturi. Decepado. Escalado. Sabe Deus como o nosso corpo de cada dia. O chuveiro lava,  leva na água suja das barrigas, pelo ralo, as tripas e o desgosto, escoados, o lugar onde tudo amarga. Às vezes, é à faca que a faca entra. Deve ser por isso que bons poetas fazem, nessas vezes, maus poemas, ou muito bons, à faca: vai fundo de mais a lâmina afiada demais, limpo de mais até ao osso - é que é preciso resistir, quando é muito, para não morrer: resistir à força do poema que se escreve sozinho na ponta do bisturi, por dentro das barrigas vazias, limpas demais, pode uma pessoa partir-se em bocados, de tão funda ir a lâmina, afiada. Se a faca for demasiado fundo, não se colam as polpinhas a tempo do jantar. Nem do poema. Ou da vida.

27 de junho de 2012

Não tem conversa, nem há conversa. É o que é.


Esta noite choramos. Amanhã recomeçamos. Outra vez. Quantas vezes? (Que despropósito!, quantos dias tem uma vida?) Todas, quantas tivermos para recomeçar.


Bonjour Mundo!

running wild lailailailai
running wild mighty bold
feeling gay reckless too
carefree mind all the time never blue
don't love nobody it's not worthwhile
all alone running wild

(Bónus de Bonjour: ínfima imazinha batota/correcção porque os malvados desta pub, vá, enganaram-se um bocadinho na letra que a linda boquinha da minha Marylin cantou tão bem. Por esta passa, pelo acerto em tudo o resto, estão perdoados.)

26 de junho de 2012

iii - Para Borges, ao serão

Pequeninas histórias para o serão de Borges.
O HOMEM, O CÃO E A ÁRVORE
Explicaram-me, não percebi se o mundo se a civilização se a inteligência, assim: um cão não sabe que é um cão, uma árvore não sabe que principia e acaba: estas são as diferenças entre nós, que nos sabemos e sabemos da vida e da morte, e o resto.

Não sei do pensamento dos cães algo que os impeça de se reconhecerem cães ou, avessamente, favoreça tal discernimento. E talvez os ramos das árvores não cantem a sequência de Fibonacci, 1, 1, 2, 3 5, 8, 13, 21… enquanto a reproduzem na angulação da folhagem para a melhor eficácia na captação da luz. Outras simplicidades divinas derramadas pela natureza sob a forma de regra há, descobertas ou por descobrir.

Mas sei que desde que o homem é homem vive junto de outros homens, de cães e árvores. E desde a mesma data, um ou outro homem se afastam e partem para viver na solidão das grutas e nelas abrir memórias identitárias, afagos divinos ou fúrias a que chamam revelações e são sempre as mesmas. Quatro patas e uma sombra verde por companhia, às vezes de quarenta dias, às vezes de quarenta anos.

Para quê subir à montanha e mergulhar na escuridão da gruta a juventude da alma – não é perfeita a língua portuguesa que que permite à alma a ascese da  lama só com a mínima alteração toponímica das primeiras vogal e consoante, e assim desenha o círculo do significado em tão pouco esforço? Para quê subir à montanha? Não é óbvio que só precisa de se separar o que está unido? E no entanto afastam-se, partem. Se a natureza é una, a separação é ilusória. Apesar da mais funda solidão de nascer, viver, morrer, não há o homem só como não há alma sem lama.

Ninguém, afinal, sobe à montanha e desce à gruta para viver a verdade, apenas para reconhecer a mentira. Os poetas sabem disto que místicos e santos trazem à carne como eles ao verso - os cães e as árvores talvez saibam, ou não: toda a vida é santa, até o pecado é santo. Por isso regressam os eremitas à comunhão com os homens, e não fazem distinção entre a besta e a flor. Dos calcanhares cai-lhes a cada passo a lógica do amor que é a subversão da, de outro modo inquebrantável, lógica da natureza: deixam-se matar ou ressuscitam mortos, ou nascem-lhes rosas na menina dos olhos e vêem anjos, ou falam a língua dos pássaros por conhecerem, da matemática das esferas, música, o fonema primordial.

Bonjour Mundo!

do do do do do de do do do do do do do do do
mahna mahna
do doo be do do
mahna mahna
do do do do
mahna mahna
do doo de do do de do do de do do de do do doodle do do do doo do
lai lai lai lai
lailailailailailailailailalailailai

25 de junho de 2012

ii - Para Borges, ao serão


Pequeninas histórias para o serão de Borges - com agradecimento ao impressivo Blade Runner.
RACHEL
Era uma vez o futuro. No futuro, era uma vez um homem. O homem do futuro era historiador, especialista no século xx, coleccionador, casado, pai. Era um homem como se fosse de hoje, não fora ser do futuro: não era novo nem velho, não era alto nem baixo, não era gordo nem magro, não era bonito nem feio, não era rico nem pobre. Nos tempos livres continuava o trabalho, enfiava-se na sala que era mais dele, a alinhar o raciocínio de documentos passados, debaixo do olhar das bonecas também alinhadas na prateleira. As bonecas da colecção de bonecas: de cartão, de porcelana, de plástico, de borracha, de silicone. Vestidas de papel pintado, de algodão, de seda. Articuladas por um fio ou pela mecânica. Mudas e de lindos olhos redondos de cristal. Falantes de gravação. Louras, morenas, ruivas. Na prateleira. Nem muito pó nem muita atenção: era um homem como se fosse de hoje, tinha querido uma de cada vez enquanto não queria a seguinte.

Um dia, no futuro, era noite como as noites são. O homem beijou os filhos já adormecidos e entalou-lhes a roupa da cama no corpo para os aconchegar num abraço apertado. Deitou-se, sonhou e acordou febril. Levantou-se, foi à salinha que era mais dele, pregou o pensamento na prateleira, tirou as bonecas uma por uma, espreitou por baixo dos vestidos, passou-lhes a mão nos cabelos, avaliou braços e pernas, voltou a alinhá-las, sentou-se à secretária e desenhou os planos de uma boneca como a do sonho que tivera. Não era engenheiro, mandou construí-la - coisa fácil no futuro daqui a muito tempo, até a densidade da carne na pressão dos dedos é fácil como escolher no hoje a macieza ou a tensão dos colchões.

Levou a boneca para casa, instalou-a no sofá e ligou-a. Ela cruzou as pernas, ajeitou o cabelo atrás da orelha e sorriu-lhe.  Ele também lhe sorriu e estendeu-lhe a mão, então, ela a dela. Como lhe tinha desenhado o cérebro, punham-se os dois a alinhar o raciocínio de documentos passados debaixo do olhar das bonecas também alinhadas na prateleira. Quando o homem se ia deitar, a boneca também ia, deitava-se ao lado, punha a cabeça no ombro dele, o braço por cima, a perna, outro aconchego, a cama era larga, cabiam três, a mulher, do outro lado, não se importava, era só uma boneca.

Um dia, no futuro, era manhã como as manhãs são. O homem beijou a mulher, bom dia, querida, levantou-se com o sol que ainda é o mesmo de hoje. A boneca, na cozinha, já lhe tinha feito o café. E estava pronta para sair. 
- Onde vais? - perguntou-lhe o homem, espantado. Não podes sair, os teus circuitos electrónicos desligam-se além da linha da porta. 
- Vou-me embora. Tens outra Rachel na cama, eu só te tenho a ti. 
- Tu és a Rachel, não há outra igual, és única. Ela é minha mulher. Tu és uma boneca. Inventei-te a partir de um sonho que tive. 
- Tonto, és um tonto. A ti, quem te fez sonhar? Não foi quem te sonhou?

Bonjour Mundo!

i feel pretty
oh so pretty 
i feel pretty and witty and gay 
and i pity 
any girl who isn't me today
i feel charming 
oh so charming 
it's alarming how charming I feel 
and so pretty 
that I hardly can believe i'm real
lailailailai lailailailai 
lailailai
i feel dizzy 
i feel sunny
i feel fizzy and funny and fine
and so pretty 
miss America can just resign
lailailailai


24 de junho de 2012

A OUTRA FACE - 2

(A OUTRA FACE é o melhor post da semana publicado na bloga, bem entendido, para a Cabeça de Cão, enfim, aquele de que mais gostei - linkado sub, na legenda.) 

Talvez seja uma fotografia, shot through the heart, uma short, shoot to kill, o mito, qualquer um que seja de mel e penas, e de sonho ao sol. Talvez. Ou não. Não sei.
Ruth Rosengarten, looking down (Icarus) 

Evangelho Segundo a Cabeça de Cão





[Fredo Coreleone traiu o seu irmão Michael Corleone. Depois de saírem de Cuba, de volta a casa, no Nevada, Michael informa o irmão da decisão que tomou.]


Michael Corleone: Fredo, you're nothing to me now. You're not a brother, you're not a friend. I don't want to know you or what you do. I don't want to see you at the hotels, I don't want you near my house. When you see our mother, I want to know a day in advance, so I won't be there. You understand? 

Cabeça de Cão : Palavra da Salvação.
Leitores do Cabeça de Cão: Ui!
Cabeça de Cão: Pois, ui que se farta, mas tem de ser: só há traição onde há amor, o resto é desonestidade, ou quebra de contrato, ou lailailai, menoridades. Às cobras corta-se a cabeça. C´est la vie. Dimanche há mais.

23 de junho de 2012

Vou daqui pró bailarico...

Tão balalão 
Na noite de S. João
Para não andar tristonha saí com o meu lindo Cão
ó-i-ó-ai
Não disse nem água vai
E agora estou risonha dos olhos ao coração
ó-i-ó-ai 
Fui comprar um manjerico
ó-i-ó-ai
Vou daqui pró bailarico
Quem tem de escrever
Cedo ou tarde é lido
É Cabeça livre
Não toca de ouvido
Quem nasce pra escolher
Não é pra ser escolhido
É de raça livre
Não bicho cativo
Toca o fungagá toca o sol e dó
Vamos lá nesta marcha a um fulambó
Toca o fungagá toca o sol e dó
Vamos lá nesta marcha a um fulambó

ART ME UP


(MALABAR EMOTIONAL DESIGN: dizer objectos nos seus constituintes tradicionais e acrescidos de concreta portugalidade, é pouco para dizer MALABAR. Com mais ou menos irreverência, com originalidade, inteligência e sofisticação, Malabar é aquilo e mais isto, e mais o design de autor. 

TUDO ISTO É... é um projecto MALABAR. Para o concretizar, convidou artistas nacionais a reinterpretarem a guitarra: que a tratassem como tela, como escultura, como quissem. Aos 21 que aceitaram tal desafio, foi enviada uma mala, de madeira, que continha, de facto, uma guitarra: em peças, porém. Uma das artistas que aceitou o convite foi Ana Vidigal. À guitarra espelhada que concebeu, deu-lhe por título: Severa, existe alguém mais bela do que eu?)


ANA VIDIGAL - iii - SEVERA, EXISTE ALGUÉM MAIS BELA DO QUE EU?
SILÊNCIO QUE SE VAI CONTAR UMA GUITARRA!

A marquesa Catherine de Rambouillet foi, para alguns, a mais preciosa entre as preciosas – nome dado pelos próprios a si mesmos: Les Précieux. La Préciosité foi um movimento estético e cultural fortemente promovido pela aristocracia francesa dominante, através des chambres blues, salões literários de referência que interessavam frequentar pela promoção, pelo avanço oferecidos a um escritor, um poeta, a um artista, a um homem da sociedade - logo que a nobreza lhe corresse nas veias onde, então, se acolhia a também nobreza da alma. 

Mais: eram salões de musical leveza dançante na arte da conversação, quando não meditativa. A recriação dos modos de tratamento entre eles, mais ou menos protocolares, levantavam uma diferença protectora de qualquer contaminação popular, grosseira, ou até por quem quer que estivesse fora do círculo de convívio. No entanto, os modos faziam moda, transbordam para fora das rarefeitas alcovas. 

Mesmo pelo culto de um amor platonizante, os preciosos se distinguiam: um amor vagamente cortês, contra-natura e pró-espírito, tendencialmente descarnalizado - nem por isso casto, antes reprimido até que uma cortina descomposta. E havia, claro, o apertado espartilho de uma linguagem tal que se reinventava para dizer o dizível. 

Expressões que pegavam fogo e, descendentes na hierarquia, saltavam para a ponta da língua varina que, não só carecia de protecções contaminatórias, como não se coibia das mais elevadas aspirações: de baixo, olha-se sempre para cima, pois então. Mesmo hoje. Uma desnatização, chamemos-lhe assim: de la crème de la crème, para o leite ainda morno de acabado de mugir.

Preciosos a quem Molière mimoseou de ridículos em pena mais feroz que bico aquilino, e levada à cena - mas devemo-lhes, a estes preciosos, não apenas o preciosismo, também cultura, ditos, mesmo ideais e uma estética, creio, de um barroco cartesiano. Acima de tudo, devemo-lhes, no tempo desvalorizado da mulher, a colocação desta em lugar central como agente de cultura. E devemo-lhes, por exemplo: os olhos são  o espelho da alma.


Aqui estamos. Diante da guitarra espelhada de Ana Vidigal: Severa, existe alguém mais bela do que eu?

Pasme-se: é o espelho de Severa, guitarra que a acompanhava, quem pergunta. Só para, apaixonada e fielmente, lhe afirmar, no reflexo devolvido, nota a nota: a mais bela és tu, Severa. 

Quem está reflectido na guitarra espelhada de Ana Vidigal? Se a olharmos, os nossos olhos. Estará neles também a alma feita voz e canto mundialmente patrimoniados? Aquele canto saído das docas, vindo, saberão Deus e Néry de onde e que, subindo a viela se ouvia pela rua, tomou lugar no mais baixo dos bordéis de Alfama onde nenhuma chambre blue, vermelho sexo, sangue, chambre rouge de vida. Aquele canto que foi pelas tabernas do Castelo e da Mouraria, foi, ficou lá, onde, vadio, fez a amorosa revolução das classes, fidalga e lavadeira que Marx não sonhou. Música e letra transitavam com lua e sol, da noite para o dia, as notas da guitarra chula para a pauta do piano da menina trazidas par son papa. De cima, olha-se sempre para baixo, pois então. Mesmo hoje. De coupé o senhor fado: do bordel para o salão.

Talvez a Severa tenha sido a mais preciosa entre as preciosas - para o conde de Vimioso, amado amante, foi com certeza. E à Severa nem Moliére se atreveria a levantar-lhe um risco de tinta.

Olho esta guitarra espelhada. Só vejo o que ela me deixa no reflexo que me devolve. O fado, nascido no mais azul dos salões: seu pai é o céu do horizonte sem terra à vista, e sua a mãe o mar sem fim.

FADO DA DOCE LUZ 
- fado ao espelho -

Se um dia hei-de morrer
e morrerei
seja o céu do claro azul
que tanto amei
nesta terra do sul
porta do mar
onde o coração não cansa 
de navegar
Que o voo leve da andorinha
leve o sonho que tinha
de um grande amor
e em mim fique a saudade
que amanhece em doce luz
e o desejo bem guardado
amadurecido em cruz

Bonjour Mundo!

no! 
no no no no no no
no-ooooooo
no no no no no no
NO!
lailailailailailailailai

é sábado é sábado é sábado viva sábado VIVA!

22 de junho de 2012

vii - Ces petits riens

i - C´est quoi la vie? De logo muito cedo, pensamos: quero isto e aquilo da vida, sem nunca perguntarmos o que quer a vida de nós. A vida. Não os nossos pais, os nossos pares, o nosso amor, a igreja, o país, o eco do pensamento da civilização ainda nos ouvidos - estas camadas sobre camadas de resíduos bem depositados, mesmo se amantes e amados, não somos nós: fazem parte de nós, tão somente. Como podemos, então, dizer: isto e aquilo quero de mim, para mim?  MIM: eu tão grande, educado de berço para crescer, crescer, crescer, e sem jamais ultrapassar alturas liliputianas. Mas podemos olhar o anjo nos olhos e não cegar quando dizemos: faça-se em mim segundo a tua palavra. Qualquer que a palavra seja: Cristo ou camionista, ilustrador, pai. Como outra voz, igualmente mariana, porém masculina, da mesma matéria da harmonia, todavia de outra luz, mais ao norte, argêntea, disse ali, ao fim dos pássaros da manhã, tão perfeitamente dito que a própria voz se fez pássaro, e voou: Fantastic to feel how my poem grows/ while I myself shrink./ It grows, it takes my place./ It pushes me aside./ It throws me out of the nest. The poem is ready.

ART ME UP


ANA VIDIGAL - ii - CASA DOS SEGREDOS
LOCK ME SAFE-SET ME FREE

Da Casa dos Segredos, de Ana Vidigal, já li que era uma escultura, uma instalação e ambas. Deixo isso para quem disse. Mas a afirmação da construção através da desconstrução de um espaço pelo realinhamento de cacifos forrados, acima, de espelho, da manipulação da luz e da circulação, não chega para descrever o que encontramos quando entramos no átrio do IST. A ser um conceito tangível, da ordem do da escultura, do da instalação, a Casa dos Segredos é um verbo no gerúndio, o único tempo que serve à fénix, ao que principia e acaba para principiar, ao contínuo humano – ao labirinto.

A Casa dos Segredos é a narração de um processo, narração feita com os recursos disponíveis no local - uma economia razoável, sensata e, predominantemente, doméstica. Nada que seja incomum nos trabalhos de Ana Vidigal. Ou melhor, é um traço distintivo neles - não há equívocos nesta transformação que actua fora como dentro: de um casaco se faz uma saia; das sobras de uma refeição outra; de mil livros lidos se escreve um inédito; de uma fotonovela faz-se uma situação numa tela. Da casa que se atravessa, faz-se o mundo por onde se caminha: labirinto é o processo de transformação de uma coisa num outro si mesmo, um centro de ser que se expande.

Talvez este seja o mais tradicionalmente feminino trabalho de Ana Vidigal – o que não deixa de ser interessante como recorrência nos termos interpretativos do lugar da mulher, do conflito e da pacificação dessas posições. Talvez por isso esteja, ostensivamente, no átrio de um mundo tradicionalmente masculino, o IST. Logo, e paradoxalmente, é feminista. Não por contestação, por confirmação. Estamos aqui. Outro traço distintivo: a presença da dualidade, feminino-masculino. Adiante mais. E a intervenção, deveria dizer a feminização do espaço? Radical: a Casa dos Segredos é, antes de ser outra coisa, uma caixa  de caixas, a maior cuja tampa é a clarabóia, luz de fora filtrada para dentro, como no tempo da infância de Ana Vidigal, onde se fez pessoa, quando era através do homem fora que o mundo chegava à mulher dentro, casa-caixa-contentor de si e continente de outros, um mundo e outro mundo. As paredes erguidas tais muralha, caixas-cacifos, modo vertical de actuar, assumpção do modo masculino pelo feminino, ir ao mundo fora, levando o mundo de dentro. Um mundo e outro mundos num só mundo: uma das paredes caiu, dentro prolonga-se para fora, e fora cresce para dentro, o continente somos eu e tu, à vez. Dentro dela, a casa, nomeada na parede pelo lado externo, qual villa onde se habite: Casa dos Segredos. E este é o seu maior segredo, à vista de todos, o segredo do movimento dos tempos no tempo: este mundo masculino já é feminino, estamos aqui, diz a voz de uma, hoje, mulher. 


E o segredo, o privado, é ainda possível?

A Casa dos Segredos terá sido um reality show à semelhança de um Big Brother - o jogo de sedução de Godard quando pisca o olho ao público. A parede caiu. Da coincidência de programa e intervenção, entra-se na evidência: o espaço privado no espaço público. As tais mais dualidades acima prometidas. Ou se preferirmos, o espaço do voyeur no lugar do exibicionista: faço para que vejas, mimética proustiana, vejo para que faças. Outro traço distintivo que aqui recorre: humor, provocação, mise-en-scéne, espelho de nós, caricatura encenada. Mas existe ainda a privacidade? O lugar íntimo no tempo do chip, do gps, do FB, quando ser é comunicar que se é? A parede caiu. E, não de somenos, há também o lugar do objecto e do atributo, sintomas: sinais identitários do ser e do fazer,  profissão, crença, hobby, casado, solteiro, rico, triste, aplicado, solitário, popular, fechado a segredo cadeado, a segredo solitário por entre a gente, exposto para ser visto, e exposto até à invisibilidade: lock me safe-set me free.

Mais outro traço: a repetição e a super-abundância, no caso, a da mesma ideia em formas iguais e diferentes para mais completamente a explorar. Uma caixa dentro de outra caixa dentro de outra caixa. Cacifo, cacifo, cacifo, cacifo, cacifo. Acima e abaixo cacifos, caixas sobre caixas. Luz de clarabóia sobre os espelhos e devolvida para fora, de fora para dentro, de dentro para fora, outra vez, de outra maneira. Estamos aqui.

E, finalmente: buraco no tronco da árvore de Alice: caindo, entrando no labirinto, se transita do público-privado, aberto-fechado, do eu-persona para o eu-comigo, e um fio inteiro para me encontrares, a mim Ariadne, não à saída, não ao outro ao meu lado, igual a mim pelo lado de fora, a mim, indivíduo único, para me encontrar a mim mesmo, e para ser, individuação, ser em caminho, caminhante - em relação, em situação, no tempo. Outro traço distintivo: o diálogo, a dinâmica pessoalíssima de um processo criativo, não a dinâmica para uma resolução.

É pelos traços distintivos, que bom, porque compõem uma específica linguagem assinada, que podemos dizer: é da Ana Vidigal.




* solitário por entre a gente..., de Camões in O AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER

Bonjour Mundo!

lailailailailai
the boy does nothing
i wanna see you work
i wanna see you lailailailai
i wanna see you work it work it work it out now
lailailailailai

21 de junho de 2012

ART ME UP


ANA VIDIGAL - i
WHO THE HELL ARE YOU

Ana Vidigal, Secura de boca depois de arfar, 2009, técnica mista sobre papel

Com quem fala Ana Vidigal nas notas quase de rodapé das suas telas, letras uma a uma riscadas por dentro da régua, a caneta, a bisturi quando cortam, e quando colam, a quê?, firmes e certas como um passo, marcham, a quem grita enormes letras ao centro do centro de gravidade alterado pelo peso pintado das palavras, para quem a sombra que assoma em voz de minúsculas, qual lápis fino, quase fumo, num título, às vezes penso com quem andarás a dormir. Fala com ela mesma. Consigo. Comigo. Fala com todos os que alguma vez se perguntaram: com quem andarás a dormir. E com aquele tu de carne ou ficção que dorme saberá Deus com que concreto ou inconcreto quem – ainda que a autobiografia, se a houvesse, não fosse mais do que o ponto de partida, mitologia pessoal, pois à chegada, na peça que criou, estamos todos. A Ana Vidigal tem a Ana Vidigal por interlocutor. E tem por interlocutores que não lhe falam, nós connosco. Mais: ela connosco. E de somenos: eu contigo.

Ana Vidigal, Pensas que o sexo terá importância, 2009, técnica mista sobre papel

Sim. Se uma pessoa fosse um número, a Ana Vidigal seria um 2, nem que fosse o do eu ao espelho. Quer dizer, ela ao espelho. Nós em diálogo nem que seja monólogo. Integrador? Menina Limpa Menina Suja na antologia onde mais se viu o fundamental rodopio do tempo, tempo maiúsculo, tempo capital. Tempo: o ontem é o hoje processado em busca do ontem? Que ontem? Que hoje? Ou será em busca do futuro? Ironia colorida a kitsch, poesia desenhada a pop? A pintura também tem humor – e humores.

Ana Vidigal, A woman´s work is never done, 2002 

O ontem da casa, lugar da família, lugar de mulher, o do homem é o trabalho, ontem do quê e de quem, afinal?  Quando, como começamos a ser, onde? Ontem, sempre ontem, com os nossos pais, na família, na casa. As casinhas. O que é um presépio, quem vive no presépio das casinhas de presépio? A representação do espaço íntimo, é um espaço social, no rodopio do tempo. É. E a mãe, o pai, são o homem e a mulher. São. E a casa e o atelier, dois mundos. 2. E assim, do eu para o tu que somos nós, onde o passado infantil converge com o adulto do presente que o aborda, a Ana Vidigal transita do indivíduo que é para a artista que é – casa e atelier. E perguntando ao ontem que fomos, linda, linda Anita, linda a cozinha de Anita, perfeita dona de casa, imaculado avental sobre o vestido, lindos de se comerem com os olhos os desenhos lindos como cerejas, um atrás do outro, pergunta quem podemos ser hoje, amanhã. Quem, quando as regras forem o desuso das regras de hoje como as de hoje são a liberdade das de ontem?

Ana Vidigal, Twin Peaks, 2006

Pensando nisto, formalmente, talvez não, não seja integrador o monólogo-diálogo. Ou talvez sim. Inclino-me para o não. Emparelhado – afinal, até os modos de ser na arte são 2, e não é porque já se aproximam, têm vindo a aproximar, que são um. E, também, a resolução não combina com a criação da Ana Vidigal porque é uma forma de escoamento, tende para o fim e para morte, resulta, nela, e apenas, na conclusão do objecto, ou dum conjunto de objectos, exaustos de exaustivos, telas, uma outra outra, a reorganização da organização da desordem, cortes sobre recortes, cola cola cola até ao limite do verniz, simplesmente maria, simplesmente verso, simplesmente palavra recortada, reconto de um conto mil vezes contado, o único que interessa ouvir. Cortar é separar: distância. Colar é juntar: proximidade. 2. E outra vez. De outra maneira: quantos babetes alinhados, aninhadas no peito quantas batidas do coração, o que é um pai, quem é um pai na ausência, todos os pais se fazem pais no regresso, Ulisses, quando os filhos na praia se fazem Telémaco e os chamam, voltam. Penélope espera. Mas é o filho quem chama. E só assim regressa Ulisses. Outra vez a ordem sobre o caos em cada roseta de cartas fechadas em envelopes envoltos em plástico, rosetas ligadas por agrafos, fechadas por agrafos, nada se solta, a colcha cobre a cama tal como as palavras cobrem, vestem a ausência e a nudez tão nua, dois corpos que não se encontram ainda assim se correspondem: respondem um ao outro. By Air Mail. Par Avion. O céu é cor de envelope. E o amor também. Como se arruma a distância se não for pelo quotidiano? Não, Thanatos não domina. Serve a Eros. E ao conflito. Recolhe. Junta. Organiza. Espera. Corta. Desenha. Risca. Pinta. Recorta. Cola. Escreve. Enverniza.

Ana Vidigal, Penélope

Nem na opressão da fita cola, não sei, celofane, tenso, tão tenso e não rasga, nem é rasgado, os peluches não têm unhas, de tanta macieza, não têm, de não terem, podiam sufocar, que perigo: há donzelas fechadas em castelos de lã. Há horrores ali, se quisermos, fábricas de abusadores transparentes, fábricas de vítimas tenras. Sim, é isso, tudo 2. Bem, quase tudo: o processo criativo é um.

Ana Vidigal, (Des) animados, 2000

E as coisas. Só as coisas - palavra bela e boa. Coisinhas também. Uma das melhores para Agostinho da Silva. Pessoa gostava muito. Outros. É talvez uma das minhas palavras preferidas. Calha mesmo bem: a Ana Vidigal faz coisas, e entre as minhas preferidas, uns corações de ex-votos, de cera, coisas, lá está, de quem pede pela vida e lha dão e sinaliza a dádiva a cera de obrigada: carregados de tachas e são luz que nos ilumina de felicidade, despidos e são nada de tão sós, à varanda numa janela de insónias são música de vento, vestidos de preto, tanta saudade.

Ana Vidigal, Lustre?

Digo o mais que falta, quase tudo, noutro dia.

Bonjour Mundo!

běifāng yǒu jiārén juéshì ér dúlì
yí gù qīng rén chéng zài gù qīng rén guó
nìng bù zhī qīng chéng yǔ qīng guó
jiārén nán zài dé
lai lai lai lai 
běifāng yǒu jiārén juéshì ér dúlì lailailailai


20 de junho de 2012

Bonjour Mundo!

If you wanna be happy
For the rest of your life,
Never make a ugly woman your wife,
So from my personal point of view,
Get a pretty girl to marry you.
lailailailailai
lailailai


19 de junho de 2012

vi - Ces petits riens

(...)
Âme sentinelle,
Murmurons l'aveu
De la nuit si nulle
Et du jour en feu.
(...)

i - C'est quoi l'éternité? Adeus não é, apenas, uma despedida. É também uma idade sólida, ainda que sem qualquer endurecimento das artérias. Mas não definida pelo indivíduo nem pela cronologia. É indefinível, portanto, quer pelo eu quer pelo tempo - talvez durma com os mistérios. Se não é do tempo e é da vida,  é um fragmento da eternidade e um fragmento da eternidade é, vedantamente, a eternidade inteira, como um fragmento da matéria é chave da matéria. O infinitamente grande só cabe no infinitamente pequeno. Não, adeus, não é, apenas, uma despedida. É: a Deus. É: para a eternidade. Ou: para nunca mais. Mesmo para o nada, e assim faz-se memória, esquecimento e, por fim, é a morte. O retorno. A matéria inicial: é a Deus e é a eternidade. É assim. Como tão perfeitamente disse a voz que passou pela garganta de Rimbaud: Elle est retrouvée./ Quoi ? — L'Éternité./ C'est la mer allée/ Avec le soleil.

Bonjour Mundo!

lailailailailailai
bonjour
bonjour
lailailailailailai
oh isn't this amazing
it's my fav'rite part because - you'll see
here's where she meets Prince Charming
but she won't discover that it's him 'til chapter three 
lailailai
bonjour bonjour bonjour

18 de junho de 2012

v - Ces petits riens

i - C´est quoi le silence? Quando o que quer ser dito é igual ao que não quer ser ouvido, é o tempo do silêncio. A distância e a estranheza chegam logo a seguir. Depois há a montanha alta, ao fundo, e ao fundo do fundo, nada. O tempo do silêncio é o tempo aterrorizado de Beckett: in the silence you don´t know. Não foi ele quem também disse: words are all we have?

Nem incenso, atchim, nem om: ão

Cabeça de Cão, perdão, de Yoga


Bonjour Mundo!

este negócio de i love you
de mon amour de Paris je t'aime
lailailailai lailailailai
é bem melhor é muito mais bonito
quando se ouve um rapagão aflito
dizer baixinho junto da pessoa
você morena é um bocado boa
lailailai

17 de junho de 2012

iv - Ces petits riens

i - C´est quoi la liberté? Sequer sei se há liberdade ou apenas determinismo. Mas penso: se ela houver, talvez a irreverência seja um dos seus constituintes. A subserviência nunca.

A OUTRA FACE - 1

(A OUTRA FACE é o melhor post da semana publicado na bloga, bem entendido, para a Cabeça de Cão , enfim, aquele de que mais gostei - linkado sub, no título.) 


O MAIS BELO DOS FILMES - Manuel S. Fonseca

Ao João Bénard, ao Manuel Cin­tra Ferreira
A porta abre-se para a direita, os vio­li­nos entram pela esquerda e a madura silhu­eta de uma mulher recorta-se con­tra a luz do deserto. A mulher, pas­sos hesi­tan­tes, dan­ça­dos, vai da porta para a varanda tosca, a câmara atrás dela. O contra-campo revela-lhe a beleza ansi­osa de anos de sacri­fí­cio e renún­cia. Põe a mão sobre os olhos para deci­frar o vulto de cavalo e cava­leiro que o hori­zonte empurra em direc­ção à casa. Atrás dela surge a indi­fe­rença inter­ro­ga­tiva de um marido e ouve-se a pri­meira pala­vra: “Ethan?” A res­posta sufoca na gar­ganta da mulher. Uma rubra como­ção acorre-lhe às faces, à res­pi­ra­ção que, mais do que o vento, agita a gola da blusa, o avental.
Em 40 segun­dos, contra-luz e contra-campo, a porta que se abre, três acto­res, um só hipo­té­tico nome e a vibra­ção de um vio­lino, John Ford conta, a quem tenha olhos para ver, uma his­tó­ria de amor proibido.
O filme, que uma porta abre e outra porta fecha, é The Sear­chers. Sendo o mais belo dos mais belos dos fil­mes de Ford, é o mais falso wes­tern que já vi. Os cava­los, os índios, até a épica pas­sa­gem das esta­ções, o cíclico galope de des­trui­ção e vin­gança, mal dis­far­çam o ven­da­val de amor proi­bido, que assom­bra as per­so­na­gens, todo o filme.
Disse-se que o som­brio cava­leiro é um Ulis­ses e The Sear­chers a Odis­seia do homé­rico Ford. Mas o cão que da varanda ladra ao fan­to­má­tico Ethan (John Wayne) não é Argos. E muito menos é Pené­lope esta mulher que, farta de espe­rar, casou e teve filhos. Nem os bra­ços do irmão se abrem a Ethan com o afecto de Eumeu ou Telémaco. os olhos maus de Ethan são pio­res do que os de Édipo
Esque­ça­mos Homero, pen­se­mos em Sófo­cles. Longe de Ítaca, no Texas de 1868, Ethan não regres­sou para des­can­sar de pro­di­gi­o­sas aven­tu­ras. É a morte, a morte can­sada, que chega a cavalo. O que depois sucede, a via cru­cis de ata­ques, incên­dios, vio­la­ções, escal­pes, é a ema­na­ção do con­flito que dila­cera Ethan, o arra­sa­dor reflexo do rai­voso desejo dele pela mulher do irmão. E pode tam­bém ser a coisa lar­var que na mulher foi o incum­prido amor ao marido por tanto lhe amar o irmão.
 Os olhos maus de Ethan são pio­res do que os olhos cegos de Édipo e a boca dele beija duas vezes a mulher que não pode amar. Beija-a, púdico, na fronte, mas são bei­jos que ras­gam como bacan­tes. E vemos a mulher, sozi­nha no quarto, aca­ri­ciar o capote dele, num plano que vai bus­car a luz a uma janela de Ver­meer. É um capote mili­tar, de devas­ta­ção e crime, que os dedos clan­des­ti­nos dela afa­gam na final e incon­su­mada despedida.
Filme que com João Bénard vi pela pri­meira vez, último filme que vi sen­tado ao lado do Cin­tra, gos­tava de dizer aos dois que The Sear­chers não é um wes­tern, nem um épico. Pura tra­gé­dia grega, caval­gada de res­sen­ti­mento, vin­gança e morte, só a porta que se fecha lhe con­se­gue pôr fim.

Evangelho Segundo a Cabeça de Cão




[Loretta participa à mãe de que vai casar com Johnny Camareri

Rose: Do you love him, Loretta? 
Loretta Castorini: No. 
Rose: GoodWhen you love them they drive you crazy because they know they can. 
***
[Loretta participa à mãe de que vai casar Ronny Camareri
Rose: Do you love him, Loretta? 
Loretta Castorini: Aw, ma, I love him awful. 
Rose: Oh, God, that's too bad. 


Cabeça de Cão: Palavra da salvação.

Leitores do Cabeça de CãoE não é que é?

Cabeça de CãoPois de rien, no próximo dimanche há mais.

16 de junho de 2012

Porque hoje é sábado

VAMOS DANÇAR, AMOR, ESTA NOITE

Enfiava-te fundo uma faca só para ver teu sangue correr
com todos os clichés de sangue adjectivo em hemoglobina de papel:
vermelho quente, vermelho espesso, em golfadas pela página.
Ficávamos contentes, eu e o meu ciúme de lâmina afiada -
outro cliché, mas de romance de cordel, encantamento de putas e de puras.
Também podia ser na ponta da tesoura,
de vestidinho fino de flores com a inocência dramática
das meninas de bordel, de colégio, de cordel.
E se, em mágico realismo, das vísceras te jorrasse petróleo viscoso,
vistoso jorro mágico que me salpicasse as pernas de preto,
gostava tanto, gostava mais, batia palmas felizes, sempre de criança,
nem o limpava dos saltos dos meus sempre sapatos altos de mulher, agradecia:
obrigada, querido, das tuas entranhas à mostra nasce o meu combustível,
enquanto olhava bem dentro dos teus olhos de surpresa esbugalhada de peixe -
os clichés são sempre de olhos nos olhos, dentro dos olhos, o olhar dos clichés.
Assim, seria femme fatale de romance negro em bd,
loura de dúvida para detectives enrolados em fumo,
e sozinha esperaria a certeza, de lábios vermelhos, decote agudo onde há pouco a golinha,
tomando teu pulso com o desprezo nas pontas dos dedos, loura ainda, deixava-o cair:
estás morto e bem morto, havia de rir o riso decotado: ah ah ah… já está!
Abria a porta, saía para a luz,
bebia 605 Forte sentada no degrau de cordel
alisando as florinhas da bainha, outra vez menina de redonda golinha
entre soluços sufocados de lágrimas - se o desgosto é muito grande,
o corpo cliché não fica de pé.
 Quando ao longe ouvisse o fim em sirenes da polícia,
tarde, é claro, de tarde cliché demais,
o coração despido, ó nu, apenas músculo vital de nós,
havia de me pensar contigo no meu último pensamento:
levas-me, amor, a dançar esta noite?