10 de fevereiro de 2017

It’s hard out here for a bitch




isto - it’s hard out here
Hoje tive um dia lixado. Estava sentada num banco, na Bertrand, ao lado da literatura infantil, e tinha a cabeça em automático a cantar em repeat o refrão it’s hard out here for a bitch. Na verdade, foi um dia de merda - imagino que quem leia aquilo que escrevo, pense: esta tipa diz montes de palavrões. Escrevo. Escrevo tudo. A poesia não é exclusiva é inclusiva. A ficção. Escrever, escrevo. Dizer, não digo. Nem digo tipa quanto mais gajo. Gajo, então, até me arrepia os tímpanos! No entanto, hoje disse merda, tal não foi...
Vejo agora que estou a mentir - não é por mal.
O Cão morreu dia dois de Dezembro e eu até acho que foi uma última bondade que me quis fazer, esta de passar o dia do meu aniversário comigo e adiar morrer só por mais um bocadinho. Logo de seguida fui para Belgrado e quando regressei, pouco depois, lembro-me de ter pensado: tenho de conversar sobre isto, arrumar isto ou isto devora-me. Mais. Cheguei a dizer: preciso de falar sobre isto. Mas não falei sobre isto. Achei uma mariquice. A certos pensamentos, sentimentos, dúvidas, não sei se dar-lhes voz não é soltar monstros a que depois já não conseguimos pôr a trela. Tenho este preconceito de que a tristeza é um vício em que a gente se põe. E uma falta de disciplina. E de amor pelas pessoas a quem amamos e que nos amam, e por isso a quem devemos o melhor, não o pior de nós.
E isto, que é um isto generalizado, onde cabe Trump e o tempo do homem medíocre como Agustina nos contou tão bem na sua Quinta Essência, e onde cabem os intelectuais e os dirigentes que temos porque os merecemos, e o amargo do doce pão nosso de cada dia que amarga porque o fizemos amargo, a mim, isto não me larga e, caneco, eu não sou disto!

31 de janeiro de 2017

Mistérios de Inglaterra

O Big Ben! Maravilha das maravilhas... mas, ó, está em obras, e se não estivesse, também não podia ter entrado que ainda não tem 11 ou 12, ou lá o raio da idade que precisa para subir aquela infinidade de degraus que vimos até à exaustão no youtube... Mas o lado de fora também é bom, garantiu-me. E o sino toca bem.

MISTÉRIOS DE INGLATERRA
Antes, é preciso dizer que o meu rico sobrinho mais novo que já tem cinco, e não é bebé, nem um robot, é preciso esclarecer, é um menino, não tem ainda o ouvido ideal. Pronto, foi operado aos ouvidos e mais não sei quê. Enfim, coisas pequenas para quem é grande em, vá, fonética e semântica. Adiante.
Ontem, quando a mãe o foi buscar ao colégio, perguntou, como costuma perguntar, sobre o dia, as aulas e os trabalhos de casa. Contou que tinha tido Literacy, é natural, está no primeiro ano, mas que tinha gostado mesmo da aula de Mystery.
E a minha irmã:
- Mystery?! Não! History. Não há aula de Mystery...
E meu iluminado sobrinho:
- Ó mãe... claro que há, são os segredos dos reis e das guerras na aula de Mystery of England.
Mystery é ele ser um aluno do caraças em Literacy...

18 de janeiro de 2017

Só o mundo

SÓ O MUNDO
E ninguém para nos salvar.
Só mundo. Quando, de repente,
não é uma força de bloqueio,
é uma corrente e a força do mar.
Não connosco, iogurtes fora de prazo,
mas com alguém, e a gente, espectadora
imprevista, assiste… ah é como se nascesse 
de novo, e nasce! quando aquele ovo 
de talento que se vê, cheira, sente, 
eclode e as estrelas dizem sim. 
Há o tempo em que sonhamos
os nossos sonhos, e acreditamos, 
chama-se infância. 
E o tempo em que os perdemos
de tanto os desconseguirmos.
E depois há o tempo, finalmente, 
agradecido ao nosso Deus abstracto,
mais ou menos particular,
porque o sonho de alguém se fez facto
e os dias serão os das suas concretizações - 
há lá beleza maior?
E esse é o tempo do primeiro adeus.

15 de janeiro de 2017

Expresso

Transcrevo abaixo o poema que Nicolau Santos escolheu

A MERDA DA BANDOLETE
Tinha uma bandolete,
fita preta e laço de seda.
Deixava-me a testa livre
e as ideias soltas
para teclar melhor,
sem interrupções
de cabelos ou mãos no rosto:
concentrada, reminiscente, ritmada,
teclava como quem ainda estivesse na aula de ballet:
jeté-coupé-coupé-assemblé-jeté-coupé-coupé-assemblé,
allegro, rápida, direita.

Era tão bonita a merda da bandolete
e partiu-se.
Tinha um amor e perguntei-lhe no dia em que a estreei:
gosta da minha bandolete? Comprei.
E de meu laço gosta?
Muito, puro preto de Rothko.
Foi-se a merda da bandolete
mais a merda do amor tão bom
aliterado ao ouvido com a história da arte
e os exercícios de barra e centro,
tudo jeté de uma penada, coupé, assemblé nunca mais.
Comprei uma bandolete
forrada de seda branco-pérola,
mas nenhum branco de Rothko
me prende o cabelo.
É só a merda duma bandolete.
Se o homem soubesse a falta que faz à mulher,
sentia-se um cabrão dum herói.

in O QUOTIDIANO A SECAR EM VERSO


14 de janeiro de 2017

Secreto Investimento

SECRETO INVESTIMENTO
Não estou à mesa.
À mesa senta-se o establishment.
O que é que queres comigo?
Meu querido, eu contigo, não quero nada.
Não escrevo nos jornais, não apareço nos, ui-ui, audio-visuais,
não faço parte do clube dos poetas institucionais,
nem dos ensaístas, dos cronistas, enfim, dos escritores das feiras,
da procissão dos festivais. Nada. Nem dinheiro nem poder.
Só o secreto investimento em formas improváveis.
Então, o que é que tu queres comigo?
Não vou mentir-te: também eu procurei trabalho a escrever,
achei, cada um deve fazer o que traz para fazer.
Mas só por ser
uma anacrónica idiota pré-pós-verdade.
Eu ainda vivo há duzentos anos:
os artistas entram pela porta da cozinha,
e juntos comem uma refeição na sala dos criados -
o privilégio é serem ouvidos no salão depois de subirem
pelas escadas de serviço. Nos dias de hoje,
como sozinha rodeada de mortos por todos os lados.
Sei que há vivos. Onde estão vocês, porra, que não é fácil esta cozinha...
Queres que suba? Querem ouvir-me?
Meus queridos, data venia,
ide-vos à merda.
Pela parte que me toca, e há-de ser uma proverbial
costela arrogante, quem não se sente
não é filho de boa gente,
falta-me a vocação para ir na morte
embrulhada em mortalha de empréstimo
apesar da linhagem que honrada o foi,
um século após o outro -
como dizia a histérica incensada a métrica da treta sonética,
para ser cinza, pó e nada,
que alvorada é mentira, se for preciso, vou nua,
porque meus queridos, comigo não, de mim, mais nada
além do secreto investimento em formas improváveis.
Portanto, ide-vos à merda.
Este caldo navegável
em tudo vale o mesmo, em que tudo é permutável,
em que a semântica oculta o que não é negociável,
quando a mentira é pós-verdade, e um nobel folk pop…
elejam os vossos trumps, as marinas, os podemos, os erdogans,
e chamem documentário à limonada da Beyoncé, poesia e literatura
à vergonha que aí se vê, comam-nos e bebam-nos,
meus queridos, amém,
que os porcos comem-nos
e andam gordos.

7 de janeiro de 2017

Senhor padre, why you mad? Fix ya face...

Fujam!
Estava em Belgrado e era a véspera de Natal. Para mim que sou católica e vivo pelo calendário gregoriano era. Para os belgradinos ortodoxos, não, claro.
O certo é que nessa noite fomos assistir ao Requiem de Brahams - diabo, é uma coisa um bocadinho torcida uma missa pro defunctis na noite de vinte e quatro de Dezembro, por muito que esta peça seja atípica e mais para os vivos do que para os mortos, porém, a verdade é tínhamos acabado de chegar de um restaurante de caça todo ele paredes fora cheio de uma tal catrefada de cabeças enfeitadas com cornos que quando pedi a password do WiFi e o empregado disse Bambi, comecei logo a rir. O que nasce torto... Era uma dessas noites. Nós é que ainda não sabíamos.
Depois do concerto, e por ser Natal e eu ser católica, as minhas amigas marcharam comigo para a Missa do Galo celebrada em sérvio e à meia-noite.
Terceiro banco à esquerda ou o pecado do riso...
Quando chegámos, uns bons vinte minutos antes da hora, estavam já vários bancos cheios. Pelos altifalantes, não muito alto, soft pop  do tipo natalino deprimente, Mariah Carey jurava all i want for Christmas is you - e a minha estranheza em processo de adaptação. Sentámo-nos. A filha de uma das minhas amigas, a da amiga anti-clerical, à minha direita. O padre, ainda por paramentar, andava num desatino de boa dona de casa, acende aqui uma vela, compõe ali uma fita, que raio, e toda a gente com uma seriedade purista de minoria religiosa tal que nos olhinhos até a inquisição se cheirava.
Do nada, a filha da minha amiga, educada com os valores da sua rica mãe e portanto catequese igual a zero, vira-se para mim, com um ar selecto, entre o aflito e o assertivo, e diz baixinho: eu não quero comer nem beber nada aqui.
Começo a rir e não consigo parar - caneco, há que convir, a frase é do melhor... Não estava a rir alto. Estava a rir. Quem é que nunca teve um ataque de riso? No banco atrás, murmúrios de conspiração. E havia pop nos altifalantes, pelo amor de São Kafka... E o padre, zás, a caminho de nós e vá de debitar em sérvio com a mão no meu ombro. A minha amiga traduziu-me uma versão censurada do que ele disse. Eu pedi-lhe que lhe transmitisse a minha resposta sem censura - aposto que nenhum de nós soube, nem o padre nem eu, o que o outro efectivamente quis dizer. E a seguir, debaixo do olhar de reprovação de uma inteira comunidade, saímos as quatro antes que começasse a cheirar a lenha a queimar. Em casa, meia hora depois, ainda me ria - amém.
Não foi Deus quem me disse, Ele não fala comigo, e mesmo assim tenho a certeza: é preferível nascer entre o riso do que entre lágrimas.

24 de dezembro de 2016

Postais de Belgrado iii - Natal de 2016

PONTO DE INTERROGAÇÃO
Estou à mesa a pensar na inutilidade das palavras diante
desta imagem:
parto a lepinja branca de neve por dentro,
corada de forno por fora, almofadinha aberta em fumo quente,
como pode este pão denso ser tão leve,
esta cara primitiva do pão, crística, toma-o,
estou aqui, à mesa, sozinha, nesta kafana de séculos 
onde não estás, vou partindo o pão, como-o
letra a letra até à frase, és escritora, escreve, 
a tua companhia é a vida, agora a vida está nesta kafana, 
descreve a kafana.
Para quê, para quem? nesta idade
em que cada telemóvel é um Ciclope,
e no lado da internet onde está o olho de Sauron, 
estará a kafana com certeza,
em fotografias, comentários, pontuação,
e a catedral que vejo pelo vidro embaciado
desta moldura de tectos baixos, madeiras velhas,
de tabaco - ah, e se fumam, quem me dera fumar,
não neste mundo pré-anti-tabágico, mas
um cigarro de estalo na ocidentalidade
higienicamente proibitiva -
sim, a catedral podes encontrá-la no Google Maps, 
e à distância da minha mesa ao ícone de Maria com seu Filho, também,
e por baixo, as velas católicas que enterrei e acendi na areia ortodoxa
porque Deus, que não está como tu não estás,
não estiveste nem estarás jamais a esta mesa agora,
não tem existência nem religião ainda que nos abençoe
em língua estranha, do outro lado da estrada,
ao som dos sinos e do tráfico.

17 de dezembro de 2016

Num só corpo

NUM SÓ CORPO

O tempo passa. O mundo envelhece.
A nossa grande estrela, o sol, arrefece.
E nós com eles num só corpo.
Mas na memória, encapsulado, o passado,
não.