3 de setembro de 2019

O tempo do amor das coisas bárbaras, selvagens

O TEMPO DO AMOR DAS COISAS BÁRBARAS, SELVAGENS

Uma a uma regressam as folhas
antes caídas, dispersas pelo vento
em quatro cantos de outono,
durante a sinfonia de cobre e ouro,
metais de que chuva se apodera,
e corrompe,
para fazer o grande inverno.
Uma a uma regressam
para compôr a árvore e
o esplendor esmeraldino da sua copa.

É o tempo do amor
das coisas bárbaras
quando já não é preciso domá-las
porque se dão,
vento, criaturas misteriosas, mar, gente,
é o tempo da devolução:
o cordeiro, o leão e eu
bebemos no regato a mesma água muito fresca
onde as palavras são peixinhos prateados
e cantam e dançam.

O destino dorme na semente
e só acorda na segunda germinação.

E tu, onde tens estado?


E tu, onde tens estado?

Não sei como mas Setembro chegou. Penso no homem invisível da banda desenhada à procura de roupa para existir porque existir não basta, é preciso ser visível. E tu? Para quê, então, seres criador de todas as coisas visíveis e invisíveis? Achaste que haveria roupa para vestir tudo? O luto, as fórmulas silenciosas, amor que nem pensar se pode sem rasto de incêndio e chuva de cinzas, a vida? Não estou feliz contigo. Não estou mesmo nada feliz contigo. Debulhei-me em cabalas e hermetismos e religiões comparadas, até na prática cega alimentada a colherzinhas de devoção. Sinais. Atravessei insónias por ti. Sozinha. E acreditei. Aceitei. Justifiquei tudo, até o imperdoável. Não temos todos pai, filhos, trabalho, não temos todos onde ir. Amigos. Cão. Um lugar. Não temos todos lugar.

A beleza do mundo é clara mesmo na desarmonia, isso eu sei, o mar muito largo, e o céu é todo infinito numa perfeição de papel cenário e à noite estrelas recortadas mesmo antes do muito escuro e frio. A luz morna embala-nos, enrola a tarde em fumo dourado, e talvez a cama seja o esquife onde aprendemos a navegar a morte julgando ser o amor que conjugamos. Mas a ti, a ti, não sei se voltarei. Por agora, pelo menos, acabaram-se as maiúsculas: tenho a certeza de que não virás perguntar-me, e onde estavas tu quando lancei as fundações da terra, a pedra angular, e os anjos cantaram de alegria? Tu não vieste. Tu nunca vens. És omisso. Imperdoável. Eles que te cantem. Eu não te canto mais. Basta.

26 de agosto de 2019

Auto-retrato


AUTO-RETRATO

... é verdade, 
talvez eu beba café demais, 
durma de menos, 
e procure incessantemente 
a cosmologia das coisas. 
Sofra de um excesso de razão e abismo. 
Mas. 
Também sei ficar muito quieta. 
Antena. Atenta.


E.
Separar. 
Organizar. 
Estabelecer relações. 
Reunir. 
Deixar tudo arrumado e pronto a habitar: 
uma casa, uma teoria, um texto, um poema. 
Sair deles e não regressar. 
Jamais.
Gosto de resolver sistemas complexos.
re-solvere
Primeiro apaixona-me. Depois diverte-me.
Dá-me um acréscimo de estima.
Ainda logo de seguida me entristeça,
e tenha de procurar uma dificuldade não apenas maior,
mais subtil.
Um a um, caem,
edifícios e livros.
Que tragédia,
só amo o que fica de pé.

11 de agosto de 2019

Sol do meu Inverno

Igreja de São Domingos - fotografia de Francisco Manuel Carrajola

SOL DO MEU INVERNO

diz-me, então, com que palavras te anunciou a tua mãe... Foram de amor, de desespero? Desejo? Conformadas? Secretas como as das coisas sagradas e tão adoradas que nem chegam aos lábios por se desfazerem na boca de tanta felicidade?

Juana de Aza sonhou com um cão: de tocha em flamas entre os dentes, saía-lhe do ventre. E assim, na posse desta mensagem onírica, para ela tão clara, anunciou que o filho lhe nasceria Santo e incendiaria o mundo com a palavra de Deus. Diz-me, então, com que palavras te anunciaram? Te anunciam... Memórias cruzam o céu das imaginações mais que estrelas caídas sobre a fronte de Santos, como terá acontecido no baptizado de São Domingos, filho de Juana. A avó terá visto uma estrela. A mãe a lua. Corpos celestes, quaisquer que tenham sido, quiseram fazer-se presentes, super-evidentes, audíveis. Dançaram sobre a fronte do menino em plena pia baptismal. Mas quando nada desce e nenhuma luz brilha? Ou ninguém vê. A tua estrela. A tua santidade. As tuas mãos cheias de amor. E o silêncio, como entendê-lo no seu alfabeto de mudez? 

Não foi o caso de São Domingos. Nunca. Até Nossa Senhora, rodeada de três anjos, terá descido dos céus para lhe entregar o Rosário e as bençãos do Rosário a quem o rezasse, mesmo só a esta terça parte dele, o Terço que é o nosso, em mistérios de Alegria, Luz, Dor e Glória, e onde diariamente, conta a conta desta infinita coroa de rosas, nos reconfiguramos. Para quem? Para quê? E o que nos diria, a nós, Maria, se nos visitasse? Esta distribuição de visitações, palavras e silêncios, o que diz? Que mistagogia é esta? Porque inicia uns pela pela clara vidência, pelo claro anúncio e a outros pela ausência, pelo silêncio? 

Dia oito, antes de ontem, estava na Igreja de São Domingos, lá em baixo, na Praça infame de D. Pedro IV, na celebração do seu dia, em seu nome - afinal, há oitocentos e quarenta e nove anos atrás foi o dia do seu nascimento. Fui porque quis ir. E porque os escritores, os poetas, mais ou menos dominicanos, logo, cães mais ou menos fiéis ao seu destino, de palavras mais ou menos flamejantes, e ainda que sem convertidos para além da rendida folha branca, são da O.P.: ordem dos pregadores. E não há penitência maior que a respiração da alegria, da luz, da dor, da glória e anunciá-la assim com palavras vãs. E a ti. Todas as palavras ficam curtas nas mangas. Anunciar isto que somos, ordem menor. Ao amor que trazemos, ordem maior. Balbuciar os mistérios a desejar verbos de claridade. Que penitência... E que espelho esta igreja sucessivamente destruída e reerguida, ardida, um manancial límpido de cinza e pedras negras. Poder-se-ia escrever um romance só por causa disto - se fosse precisa razão para escrever um romance.

(Nem Drogon de Daenerys! Aquela gente de Game of Thrones não viu este lugar. Brutal! Não há efeitos especiais que cheguem para estas paredes. Ainda bem que me dá para pensar estas coisas, que alívio...)

Estava sentada ali, do lado da metade do lenço de Lúcia e do Terço de Jacinta. Onde estariam melhor do que ao lado do Rosário de São Domingos, as relíquias da Visitação da Senhora da Luz e das Rosas, Sol do meu Inverno. Do lado oposto, uma imagem de Nossa Senhora grande e barroca olhava-me fixamente.



9 de agosto de 2019

Saudades de Manuel António Pina


SAUDADES DE MANUEL ANTÓNIO PINA

Ontem, na sala de espera, depois da triagem, aguardei. Durante uns segundos, ainda pensei no SNS, no Saúde 24 que me precedeu e facilitou a chegada, e na privada Médis que contratei há uns anos, mantenho e me desagrada tanto nas letras miúdas e restritivas de um acordo caríssimo. Fui educada a acreditar, se é grave, vai-se para o público, é lá que estão os cuidados intensivos de qualidade se tudo correr mal. Se não é grave e é desconfortável, e se pode e quer, então, vá-se para o privado: melhores quartos, privacidade, atendimento simpático. Confesso, a privatização dos cuidados de saúde causa-me desgosto - a raça envergonha tanto…

Ontem, uma sala cheia de gente. E com quase toda a gente, mais gente: as pessoas vão acompanhadas ao hospital. E de telemóveis onde fixar os olhos a fazer tempo. Eu não jogo nem tenho Facebook, nem Instagram ou qualquer outro aplicativo onde estar acompanhada quando estou só. Tinha um livro - não sei se isso conta, mas é o que quero ter comigo.

Estava, portanto, com Manuel António Pina. Tenho saudades de todas as crónicas que ele já não escreve e deixam pequenos buracos nos jornais e revistas. E dos poemas que ficaram em vida suspensa. Penso muitas vezes naquele almoço, o que ele não fez e eu não fui, para as trezentas  pessoas que compram livros de poesia em Portugal e em como, ao longo de uma vida, porque assim ou porque assado, nunca o conheci nem a ele nem às outras duzentas e noventa e seis pessoas, esses meus pares poéticos - logo eu que sou tão ímpar e gostava de ter companhia. Mas não é mau conhecer três leitores de poesia, comigo, quatro. Dois são poetas, um é editor. Um é amigo em horário de expediente, outro um pouco menos, outro um pouco mais.

Há isto, não é? Estar só para além da sala de espera. O quantum de solidão afere-se pela diferença. Quão diferente se é no pensamento, nos hábitos, no trabalho, no amor, no IRS. A minoria, ou as minorias, ou maiorias a que pertencemos, são o límpido espelho onde nos vemos e a medida exacta da nossa (in)visibilidade. E, verdade seja dita, os amigos morrem-nos e deixam-nos assim com cara de dois de paus e braços caídos de incredulidade, a olhar para o caixão – um caixão é só uma caixa grande, e como é possível? tudo quanto somos cabe ali... E o amor, quando nem amor foi, disfunciona como um relógio de imitação à primeira gota de chuva no mostrador. Fica-se colado ao silêncio.

Eu não. Tenho poetas em casa, escritores, andam armados em versos e parágrafos, e é gente feita de letras, é certo, e são comedidos nas salas de espera, mas nem por isso ocupam menos espaço no sofá.

6 de agosto de 2019

Contigo

Criaturas. Erva, sal, fera. E nós, caídos e levantados com palavras de fogo onde esplendemos - a poesia. Tanto espanto, aberta ferida, tanta espera. Pode-se morrer em quieto desespero e a boca alumbrada ainda de versos e beijos. E os mistérios do coração em flor, as secretas perfeições muito nuas que o mundo despe só para os nossos olhos... Como falar de Deus se não for na língua da paixão? Dá-me de beber, disse Cristo, junto ao poço. Como falar de amor sem oferecer a simetria da nossa própria sede?




5 de agosto de 2019

No meio do orvalho o amor é total

porque não podemos ser todos estáveis, santos, sábios, engenheiros e suas pontes sólidas sobre a água em fuga. Há quem venha de um mundo que levanta com a mão direita e destrói com a mão esquerda e atira ao vento a ordem do alfabeto primordial. Nem por isso disparo sobre mim num campo de flores - não pinto e os poetas suicidas morreram todos no século vinte. Poetas... gente de olhos muito grandes e pequeninos gestos infantis. Inúteis. E assim mesmo, bichos alquímicos, do escuro, beijam a luz de alfa a ómega porque encontram a alegria nos portais do subsolo quântico das letras. Dão laços que se desfazem como se fossem nós de eternidade. O que é um verso, se não for isto? Meu Deus, como nos fizeste... Crianças e seus brinquedos, vida de faz de conta a repetir o teu fiat de poder aos bonecos despedaçados, à beleza da criação.

Mas devastar bibliotecas como se fossem tu, e tu, o amor todo! Porque amar é andarmos juntos pelo lado de dentro das coisas onde os milagres são a lei que a ciência não explica: observadores amorosos interferimos no objecto sensível do amor que se desdobra em agrados. O resto é a existência. Eu passeio no jardim das tuas namoradas mortas.


31 de julho de 2019

Desisti, regresso, aqui me tens

foi então que, estendida no sofá, como se a eternidade estivesse clara à minha volta, percebi, não, não iria a correr fazer tudo quanto não fiz, dizer quanto não disse. Montar o livro atrasado meses para o deixar pronto. Não. Nem aos vinte poemas enfiados nos rascunhos do telemóvel. Na verdade, se estes fossem os meus últimos dias, faria hoje exactamente o que fiz: no YouTube, vi ovos Benedict cozinhados pelo Jamie Oliver e pelo Gordon Ramsay. As receitas de Jamie Oliver têm isto: a ausência de segredo, a transparência que nos deixa ficar bem na foto quando as reproduzimos - saem sempre bem. Mas não os farei, nem aos ovos nem ao molho holandês, penso fazê-los e isso basta. E fui à Booking para não reservar quarto no Curia Palace, nem marcar SPA nem outros prodígios onde o corpo deixa de se sentir como um inimigo íntimo. Continuei a ler, se ler se pode chamar a falar com alguém desconhecido, a andar numa solidão acompanhada, Scruton, Manuel António Pina, Lúcio Cardoso. E o silêncio de Agosto a subir da rua, a entrar no prédio, um andar de cada vez, e o céu por cima. Se calhar, é por esta razão que encontro penas tão pequeninas no quarto, uma desocupação dos anjos no trânsito e janela aberta ao calor.

E há o ilusionismo da memória. Nesta longa insónia revi o meu perfeito primeiro amor, como o primeiro amor sempre é, e o último. Entre um e o outro, a voracidade do tempo. Passou uma vida e, como é possível, não passou nem um segundo, ainda te vejo, nítido, a descer a rua e a nossa extrema a juventude, sem banda sonora e posso jurar não via mais ninguém, só a ti em cinemascope puríssimo, não havia mais ninguém na cidade deserta e decerto os cafés vinham parar à mesa da esplanada por substanciação da vontade, e não, não preciso de nada, sequer de fechar os olhos para a sensação exacta do teu rosto no meu, olá, respirar o cheiro da tua pele na curva do pescoço e numa expiração o excesso da tua ironia tão fácil de perdoar.

Versos em cascata, os bons e os maus, os lidos e os escritos, planos, fracassos, todos os enganos possíveis e nada pior do que os impossíveis. Tudo se desfaz quando embate na Pavane pour une infante défunte, na Ode ao Destino, amado Sena, meu Deus, nas razões porque vivemos, "pelo meu cão", disse Steiner, e eu também, sem o copiar. E o que tenha sido beijo, verso, ou riso. Que alívio a vida não ter importância, não termos importância. Nenhuma.

7 de fevereiro de 2019

Divina Graça

DIVINA GRAÇA


(...)Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O caminho do céu.

Adélia Prado

Ela não vem,
a poesia.
Podia chamar,
sei que nome tem.
Ela não vem mas
no avesso dos dias
caminha em sentido anti-horário
com a mesmíssima precisão
do seu gémeo cronológico
onde habitamos. Então.
Tudo quanto foi
e hoje está
na funda memória celular
até ao recuo
da primeira explosão,
amplo, amplo arco
do tempo ao não tempo e,
meu Deus,
porquê este dom da vida
nascido assim do desequilíbrio,
matriz de todos os nascimentos -
e onde regressaremos?
À casa mãe,
indistinta indivisa silenciosa negra?
Trago comigo
o Teu anti-material vazio
e a Tua explosão
de mundos estrelas pontes multiversais
em cada linha:
toda a vida está suspensa em sombra.
A complexa harmonia celeste,
e seus segredos fechados que de
adolescente busquei abrir na travessia da insónia
e das bibliotecas,
repousa longe do meu entendimento
e hoje, finalmente, ao alcance dos meus olhos,
terrível e delicada música,
expressão da Divina Graça:
poema és tu, Poeta,
pulsação em cada verso
do vento estelar, nucleossíntese do Verbo.
Ela não vem.
Não precisa.
Ela está.