17 de junho de 2018

Guarda che luna

GUARDA CHE LUNA

Há um grau de conhecimento que é de fogo.
Há algum tempo disseram-me em coro:
a tua poesia é de liberdade.
Olhei e não vi.
Querer ser livre não é ser livre.
Um desejo não é uma realidade:
é mesmo o que a realidade não é.
Não passaram assim tantos dias,
passaram os suficientes:
hoje, além de saber que todos morreremos, e ai,
para tão grande amor tão curta a vida,
sei, ao contrário de Agostinho da Silva,
que também eu morrerei. Que chatice.
Então, ouve, e sabe isto:
a dez mil mares de distância
não se partilha o mesmo escuro
e a lua que crescente se levanta diante da minha janela,
Vénus ao lado,
não é a lua à tua janela, nem com Vénus do lado,
a dez mil mares de distância, o céu não é
o nosso tecto, meu e teu, não é.
Quando a tua morte te disser olá,
podes atravessar a grande água,
e ganhar a montanha depois:
ser não é reagir, é agir em nome próprio
depois de saberes como te chamas.
Este é o nome da liberdade.
Isso e ter compreendido que o mínimo grão de areia
entre o médio e o polegar
tem a exacta imensidão do mundo:
quando a noite levantar, alta, o crescente
 e o brilho de Vénus,
estaremos debaixo do mesmo tecto,
donos do mesmo céu, tu e eu.

10 de junho de 2018

Back in business



Vou-te comer...

Voltei a cozinhar. Pensei que já não sabia e afinal... A verdade é que me apetecia terrivelmente um Kit Kat mas não me parecia que ele se fosse materializar diante de mim. E a outra verdade é que pensei mesmo que já não sabia cozinhar e resolvi confirmar que não sabia. Gosto de cremes. Creme de cogumelos. De feijão. De, sei lá, quase tudo, favas e ervilhas, lentilhas, não. Sempre fui uma grande fã de sopa. De cebola com queijo gratinado. De coentros. Enfim. Fiz creme de feijão. Ficou acetinado, tão bom, adeus kitty - miau.

A minha vontade de cozinhar tinha a vontade de escrever arrumada por junto - claro que nem suspeitei de tal coisa ou já me teria atirado ao fogão, porém quando estava a cortar as cenouras, o texto que quero escrever, e há que tempos interrompido, zás, veio inteirinho, o caminho aberto, ai que alívio, já me tinha conformado a um poema quando fosse e prosa adeus. Que alívio.

Fiz a sopa, para a passar, estreei a belíssima varinha mágica que comprei quando me mudei, a seguir liquidificadora para ficar macia. Tenho ali uma centrifugadora à espera de existir. E mais belas adormecidas há meses e meses. Depois, e enquanto revia Crasy Stupid Love, arrumei a cozinha, fiz uma máquina de roupa, pu-la na secadora, dobrei-a e cesto da roupa por passar. Sou organizada. Da secretária às gavetas. Das contas à posição das almofadas. Tenho mais do que o gosto, a satisfação da ordem. Como Psyche, temos de separar diferentes tipos de grãos numa só noite, não é? E recolher fios do velo de ouro e colher água da alta nascente e pedir a Perséfone o sono perdido. Separar os grãos sempre me foi fácil. Dormir sempre me foi difícil. Entre uma coisa e outra hão-de ter estado os verbos cozinhar e escrever. Nada é possível sem ajuda. Das formigas. De uma voz. Das águias. De Perséfone. Crasy Stupid Love é uma comédia romântica até para quem não gosta de comédias românticas. Somos todos um bocadinho Cal Weaver. O que nos salva é este gémeo obscuro, Jacob, que nos obriga a jogar os ténis fora e a voltar aos saltos altos - ou ao slim cut, quando se é do género masculino. A voltar a cozinhar. Integrar estes dois princípios é mais uma tarefa, então, são cinco as tarefas de Psyche. Bendito seja o sunday rest. E o tio Auden.

No outro dia, no ginásio, estava a pensar, nunca mais vou conseguir voltar andar de bicicleta. Hoje, quase aposto, pensei mal.

Creme de Feijão

1 batata doce grande
2 cebolas grandes
3 dentes de alho
4 cenouras médias
1 pedaço de abóbora
1 lata de feijão encarnado
1 linguiça
1 costeleta do cachaço
1 dose de caldo de carne - caseiro ou de compra
sal
Coza a linguiça com a costeleta do cachaço em água e sal. Retire as carnes. Reserve. Reserve a água. Quando esfriar, retire a película de gordura. Corte os legumes em pedaços de tamanho homogéneo e coza na água reservada já limpa da gordura das carnes - acrescente mais água e sal. Quando os legumes estiverem quase cozidos jogue o feijão e deixe fervinhar - não há problema nenhum em usar feijão de frasco, já cozido, se não tiver demolhado, eu usei e ficou bem. Desligue o lume. Passe tudo com a varinha. Depois de bem passado, jogue na liquidificadora para ficar sedoso. Se gostar da sopa com azeite, acrescente - mas não faz falta pois usou a água onde cozeu as carnes. Sirva com rodelas de linguiça e carne desfiada. Ou com ovo escalfado. Ou com um fio de crème fraîche. Se sobrar um monte de sopa, congele. Boa? Depois dou-lhe a receita do meu caldo de carne. Faz um panelão, reduz, e congela em doses individuais.

8 de junho de 2018

Ups...

Anjos e Santos, perdão, personagens ou familiares, ou lá o que é, já nem sei...


A minha irmã e o meu cunhado foram ao cinema com os miúdos ver o último Star Wars. Os meus sobrinhos adoram. O mais velho então... À saída do cinema informou logo que estava intrigado - sim, assim mesmo: mãe, agora estou intrigado, quem é o pai de Han Solo? Depreende-se, portanto, que o franchising continuará bem e de saúde. A tarde passou.

À noite, como em todas as noites, depois de estarem deitados, a minha irmã foi aconchegá-los às camas do quarto que partilham. Primeiro o mais novo, mimos, beijinhos, boa noite, Deus te abençoe, Amén. Com o mais  velho o mesmo ritual. Mas quando a minha irmã lhe diz Deus te abençoe, ele responde:
- E que a Força esteja consigo, mãe.

29 de maio de 2018

Manual de Instruções

MANUAL DE INSTRUÇÕES

Tal como a vida, a poesia. Ou nos faz ou nos desfaz.
Há um momento. É a chave. É quando, qualquer que seja o tu,
desassossego, diferença - pior que doença - medo,
sete vezes o meu tamanho, investes contra mim,
e de espada e lança e escudo e mesmo
assim, porque sigo o manual de instruções,
também eu te cortarei a cabeça e a darei
por alimento às aves do céu e aos bichos da terra:
podes ser vítima ou podes ser vitória -
não podes ser ambas, nem quando sangras.
Tens de ficar de pé, não interessa como,
no tempo do pão amargo, tempo do não,
tempo da devolução do manuscrito não solicitado,
ou do amor não desejado, ou do fracasso inesperado,
contra espada e lança e escudo, a instrução.
Às aves do céu. Aos bichos da terra.
Pensa no poema. Também ele tem de se aguentar
na inteireza do próprio verso, o que tem de o suster
é a flecha apontada ao coração da poesia,
fonte de onde todos somos, taça derramada
a correr frescura, mel, claridade e força obscura. Então,
o poema, tal como a vida, não é uma arte performativa,
não faz malabarismo, nem deita fogo pela boca,
não depende da voz interpretativa, da expressão declamativa,
não precisa de grandes gestos nem de quartetos de cordas.
O poema escreve-se, o poema lê-se, o poema diz-se.
Como a vida, é uma história de solidão contra a aniquilação pela
brancura do papel e o puro buraco branco do ecrã. Isto
e uma Acção de Graças.

22 de maio de 2018

Ocupação

OCUPAÇÃO

Entrar pelas coisas dentro -
não ficar de fora, metódico, assistente.
Pintura, página, música, rua, gente.
Todo o Amor é invasão: se nos apropriamos dele,
ocupa-nos. Assim, ele pode ir, ou nós, e
nem por isso deixará de estar presente. Sempre.

14 de maio de 2018

Duzentos dias

DUZENTOS DIAS

Que alegria teria sido
se em qualquer um destes duzentos dias
tivesses vindo dizer sim.
Mas um homem não sabe
ter um Coração de Maria:
faça-se em ti segundo a minha vontade
é o Verbo do homem.
E nem sequer tem culpa.
Vive fora. Sempre viveu fora.
Para fora. O mundo lá fora
deu-lhe trabalho a construir,
teve de o moldar.
E todo o choque é este
quando homem e mulher
batem de frente,
mundo fora, mundo dentro,
 e alegria não há por duzentos dias.
Quem ri é a serpente.

2 de maio de 2018

A tentação de um Jedi

O meu sobrinho e eu, perdão, nós somos Jedis, Darth Vader acompanhado do senador Palpatine diante da Estrela da Morte.

O meu rico sobrinho mais velho tem nove anos. Está no Year 5. E isto diz-se assim mesmo no meio do português porque ele diz assim mesmo no meio do português. Hoje tinha de levar um poema para a escola. E dizê-lo - é preciso acrescentar que o ano passado não correu famosamente: levou The Laughing Heart, de Charles Bukowski. Alguém terá pensado que não era adequado à idade dele. Ele achou que era, gosta muito do poema.

Este ano, sugeri que levasse The Tiger, de William Blake. É um poema maravilhoso. E sem dramas de adequação. E ele, zás! não. Não? Então?
- Não é poeta? Faça lá um poema de Star Wars, para mim, por favor.
- Mas eu não escrevo em inglês.
- Escreva em português que eu traduzo.
- Também não será preciso tanto, senhor tradutor...
Resumido.

A JEDI THOUGHT ABOUT THE DARK SIDE OF THE FORCE

Death Star,
oh dreaded Death Star,
where you are
i do not want to be for
i do not want to be tempted
by the Darth Vader in me.

29 de abril de 2018

Não se pode fugir


então, passei ali no quiosque das flores e comprei uma rosa a caminho de casa - é uma variedade portuguesa de rosas imprevistas. E todo o tempo vinha a pensar naquilo: as últimas imagens do documentário acabado de ver, Maria by Callas, ela ao pé da piscina quando, na verdade, já tudo foi ganho, já tudo está perdido e viver não é preciso. É passado e passou e futuro não pode haver. E a consciência disso é o fim da duração à espera do fim do tempo que lhe foi dado viver. E impressionou-me muitíssimo: como é que uma mulher tão forte se partiu aos pedaços numa linha de sismo? Eu sei que também somos os cubos do jogo de uma criança espalhados pela casa toda. As peças desunidas são só desordem, dessentido. As mesmas peças juntas, organizadas, mostram uma imagem clara.

Pouco depois do início do filme, na entrevista intermitente que o atravessa, Maria Callas, tão bonita, a linha dos lábios natural, sem estar pintada por fora, ao gosto da época, o olhar livre do excesso de maquilhagem, diz o destino é o destino, não se pode fugir. Recentemente ouvi uma Ted Talk sobre fatalistas e não fatalistas e a produtividade, desempenho e satisfação de uns e de outros. Somos animais do fundo do tempo e a nossa memória é mais longa do que a supomos. A biologia, o hardware que trazemos é de configuração antiga e, ao que parece, determina, quase sempre, se conseguimos ou não fugir. Ao plano divino. Ou astrológico. Ou circunstancial.

Chego a casa. E já a rosa está na água. Uma rosa só. Uma rosa chega.