21 de agosto de 2016

Estranho mundo



A tia Annie Leibovitz não andou longe das minhas rosas com esta Bela e este Monstro...


Estranho Mundo
Tenho rosas de plástico, bem, de pétalas de tecido, um tecido bera, uma fibra barata, mas caules e espinhos de puro plástico verde, numa jarra de vidro, na mesa-de-cabeceira. Estranho mundo. Desgosto tanto de flores artificiais que só eu sei. E no entanto.
O meu sobrinho, o mais novo, é um sedutor: agrada para se sentir amado. Entra no meu quarto, barra-se literalmente com os meus cremes, põe o hidratante de rosto nos pés - ah, sim, é verdade, gosto destas coisas à antigamente, como a minha avó fazia quando eu era pequena, não ponho os cremes na casa de banho. No quarto. Gosto do conforto da cadeira, espreito o espelho, enfim, privilégios de quem dorme sozinha no meio da bela cama de casal de lençóis tão bem esticados e almofadas de afundar. Três. Estou convencida, aliás, de que se me desse para ser endinheirada, o que comprava era uma cama Hästens – tive insónias durante mil anos, agora que já durmo, ó Deus, como gosto de dormir. O meu sobrinho mais novo, o sedutor terribilis, quando está de visita, entra-me no quarto, ao sábado, às sete da manhã com um avião Antonov que faz todos os barulhos de motores e acende mais luzes do que uma feira e diz-me: está um lindo dia de sol! Também pode ser: está um lindo dia de chuva! E o cabrão do Antonov a descolar, brrrrrmmmm, a piscar no escuro absoluto. Tenho sorte. Sempre tive bom acordar, até quando acordava de não dormir. Só uma coisa me faz acordar a meter medo ao diabo. Já contei. Martelos. Berbequins. Afins. Depois, vai à minha mesa-de- cabeceira, enfia o nariz nas rosas de plástico: hum… cheiram bem, que lindas! Não me desmancho, nem o desmancho: obrigada, meu querido, a tia adora estas rosas.
E adoro. Tanto quando as desgosto, e se as desgosto… Explico.
Sou católica. Sou divorciada, isso é um facto e por causa dele já ouvi dizer que não sou católica. Discordo. Sou uma católica que quis divorciar-se. Ámen. Também já me disseram que a comunhão me está proibida. Pois seja, mas sinto-me sempre bem-vinda e convidada para a ceia do Senhor. Poderei não ser digna de que Entreis em minha morada, porém, salva, fui de certeza, e depois disto digam quantos nãos quiserem. O único sim de que preciso, tenho-o. Sou católica, sou divorciada, e tenho rosas de plástico na mesa-de-cabeceira por causa de um sonho. Já me disseram, que horror, isso é uma superstição, um católico não faria isso. Tanto faria que eu fiz. A vida sempre se deu a conhecer por todos os meios. Mesmo sonhos, vozes, sarças ardentes, visões aladas, carros voadores. Silêncios. Imaginações. Sei lá. Coisas de internar gente por muito menos. Então.
Estava a dormir. Sonhei que estava numa loja desconhecida. E de repente era um corredor muito estreito e alto ladeado de roupa. Umas escadas. Ao cimo, à esquerda, um balde no chão cheio de rosas de todas as cores, e diante de mim infinitas prateleiras de louça. E ouvia. Sem palavras. Um entendimento. No sonho, claro. Leva as rosas vermelhas. Corta todos os botões e fica só com as rosas abertas. Põe junto à cama numa jarra de vidro transparente. E eu: e os espinhos, corto? Não os espinhos pertencem à natureza da rosa. E a seguir faço o quê? Nada. As rosas abriram.
O certo é que quando acordei, pensei: pelo sim, pelo não, vou à florista quando vier do ginásio. Levanto-me e tal e mais tal, e ginásio comigo. Estava no carro quando reparo, ao ver-me no retrovisor, que tenho o cabelo solto. Parece mentira. Nunca por nunca. Mas foi verdade naquele dia. Estaciono. Entro numa loja onde nunca estive – ia só comprar um elástico de cabelo, um daqueles fios de telefone para fazer um rabo-de-cavalo. Foi a primeira e única vez, até hoje, que entrei na loja dos chineses. Estou ao balcão da entrada. Há de um tudo. Até champô. Olho para a esquerda. O imenso corredor do sonho fez-me largar o elástico no balcão, à entrada, a carteira, as chaves do carro. Nem o incenso a que faço uma alergia tremenda me impediu ou impediria de avançar. Ao fundo, um lance de escadas. Quando estou a subi-las sinto cá uma irrealidade… Déjà vu do caraças que até mal disposta fiquei, e no chão, outra vez à esquerda, um balde cheio de rosas medonhas: azuis, verdes, encarnadas, amarelas. Cada cor mais feia do que a outra.
Pego nas rosas vermelhas, todas, como se fossem o bem mais precioso do mundo - sei lá eu se não são. Se alguém me tentasse tirar uma delas que fosse, havia de ser um agarrem-me, senão eu mato. Olho em volta. Ai a puta da jarra também aqui está? Na posse do meu sonho, raspo-me dali. Chego ao balcão tão grata por este estranho mundo que levo meia dúzia de fitas para o cabelo, elásticos que jamais usarei e duas bandoletes de plástico feias como os cornos. Lixe-se o ginásio.
Sempre fui bem mandada. Talvez por ter sido educada por uma avó autoritária. Chego a casa. Pego na tesoura de peixe e vá de cortar as cabeças dos botões de rosas – sinto-me a rainha de copas. Quando estou a cortar os botões, percebo uma vírgula, umazinha só, do mistério: cortei tudo quanto não crescia. E de repente uma torrente, um rosário de vírgulas: rosa-cálice, taça da vida, rosa-sangue, rosácea, rosa mística, se até o burro de Apuleio se fez de novo homem… Lavo as rosas, lavo jarra, deixo secar. Ponho a jarra cheia de rosas na mesa-de-cabeceira.
Desde esse dia até hoje, um depois do outro dos sonhos que tive, um só de cada vez, um, dois, três, um dia dez? dos jamais acreditei ver realizados, quis acontecer e aconteceu. Estranho mundo amado, obrigada.

8 de agosto de 2016

Houry Gebeshian sabe um segredo

Fotografei a TV. É preciso dar provas a São Tomé,
perdão, a Thomas Bernhard, lá no além...

É domingo e está calor sem vento que nos salve.
De repente, percebo porque Thomas Bernhard, epítome do adulto de consumado desencanto, não conseguiu - não é preciso perguntar não conseguiu o quê? Ele escreveu num dos seus poemas Amanhã criarei/ algo de transitório para a imortalidade. Nada do que é transitório é imortal. Tudo quanto interessa à imortalidade é feito do que dura, do amor, da morte, do medo, da coragem disso tudo no pão nosso de cada dia.
Foi agora mesmo numa brisa fresquíssima.
Estava a ver, vejo sempre, assistia com o meu avô e não sei se ainda não é com ele que estou a assistir ao apuramento para as finais de ginástica nos Olímpicos.  E vem esta miúda, e zás, corrige o verso do Bernhard, e repõe o tempo na eternidade. Amor. Alegria. O que fica. Ninguém sorri nos exercícios de trave. Já vi morder os lábios, sorrir não. A arménia Houry Gebeshian sorriu. Várias vezes. É maravilhoso quando se sorri à vida só da alegria de saber que se está a viver. Difícil também é bom. É desafiador. É pulso e bate forte. E como se isso não bastasse, mal termina o exercício, abraça a trave e dá-lhe um beijo. Há lá melhor verso do que esta acção de graças?

Exhibit number 2, tio Thomas...

15 de julho de 2016

A minha gente


A MINHA GENTE
à minha gente
Está um calor do caraças. Estava a trabalhar de gosto com este calor do caraças, a ventoinha voltada para mim, a arrumar uma linha após a outra, assim mesmo, como eu gosto, quando elas se escrevem sozinhas, sem a minha interferência – quero dizer, antes, andei para trás e para diante na cozinha enquanto comia uma peripatética banana doce que só da Madeira, e com os pensamentos a falar em voz alta dentro da cabeça, uma coisa entre um raciocínio e um dictafone mental.
Já a escrever, tinha, como mil vezes tive e terei, o canal Mezzo nas minhas costas tranquilas - nunca fui apunhalada por um concerto ainda que algumas sopranos me tenham arrepiado o bicho do ouvido. Quando terminei o texto, o concerto chegara ao fim e começara o intermezzo: de repente, desta malta que conheço tão bem, uma versão de Alfonsina y el Mar que me tinha fugido… eu que ponho flores a Mercedes Sosa de cada vez que digo o nome dela e em cada vez que a ouço ou penso, como agora, achei logo que era um presente seu para a minha colecção de alfonsinas - eu própria, se cantasse, a cantaria, muchas gracias, querida.
E pude esparramar-me no sofá de olhos fechados, só a respirar fundamente e a deixar o pensamento ir, ir por onde lhe apetecesse, de uma associação a outra… Na semana passada o meu médico, um diabo fluente em russo, regressou de umas férias em São Petersburgo e perguntei-lhe:
- Foi ao Mariinski?
E ele:
- Claro, três vezes. Entre isso e os dias que passei no Hermitage, já cagava cultura, mas queria aproveitar.
- Só ópera e concertos ou foi ao ballet?
- Fui, fui…
- Quem?
- A Vishneva, está velha, a gaja, deve ter para aí uns quarentas bem entrados.
- Está doido? Nem quarenta fez e tem muita perna ainda!
Eu que não digo uma palavra de russo também vou muito ao Mariinski, aqui no Mezzo. Foi assim. De associação em associação até que o pensamento me entrou nos seus próprios e insondáveis mistérios, que o mistério também é um escuro macio onde a alma se refaz e o mundo se inventa.
Eu escrevia. Sempre escrevi. E tinha medo. Também sempre tive medo. Escrevia para ser lida e tinha tanto medo de ser lida: e se não prestasse para nada? De vez em quando, aposto, quero acreditar, até o meu McCarthy há-de escrever uma porcaria qualquer. Mas então, eu era  de absolutos. Porque era jovem e tinha medo. Ou se prestava ou não. E se não prestasse? A vida, claro, servia-me a pedido, e ao meu medo dizia sim, o que é, de facto, um grandíssimo não, e nunca consegui publicar o que quer que fosse onde quer que fosse. Não em cada tentativa feita de susto ao sair do silêncio para a possibilidade de ser voz.
O amor, porém, é maior do que o medo. E se eu amo, e sempre amei a poesia. Então, enchi-me de uma coragem de empréstimo e vá de traduzir poetas sul-americanos numa mínima antologia pessoalíssima e de liberdade. Entre esses poetas, Alfonsina Storni, esta mesma aqui imortalizada em canto e em mar. Depois com o balanço fui-me aos norte-americanos para compôr a rosa. Ninguém quis publicar aquela versão-tradução Feitos de Norte e Feitos de Sul. Ninguém. E pela primeira santíssima vez, não me debulhei nem quis saber disso para nada. Nunca lhes amei a poesia melhor do que enquanto a escrevi em português numa febre lúcida e feliz. Um sopro.
Foi também a primeira vez em que, apesar do não, soube que estava tudo bem. Que tudo estaria sempre bem. Aquela gente, a das páginas e do canto, a da América do Sul e do Norte, e de qualquer lugar do tempo havido e por haver, era a minha gente, e a minha gente, tal como tinha vindo adiante para fazer caminho, had my back como eu a deles. E é por isso que me posso sentar de costas a escrever.

1 de julho de 2016

Clarinha

CLARINHA
Quando a Clarinha deu brado nos jornais, para mim, era apenas e ainda uma tal Clara Mendes Rebelo. Jamais a vira, tão bonita quando era pequenina, ou ouvira falar dela até àquele boom na imprensa e redes sociais, de Lisboa a Moscovo – dir-se-ia que inventara algo de novo.
Depois, como toda a gente, fui desfiando novelo Clara Mendes Rebelo. E quando cheguei ao fim, já era a Clarinha.
Clara Mendes Rebelo, divorciada, sem filhos, encontra em Lisboa o seu emprego de sonho. Não é apenas o que sabe fazer, é que gosta de fazer e quer e desejou a vida inteira: vestidos de noiva. Uma das grandes marcas propôs-lhe o atelier de Lisboa, o terceiro da Europa, e o quinto no mundo. E isto seria bom, se a oferta não tivesse por junto um nó para desfazer. A proposta fora apresentada a três estilistas de nacionalidades diferentes, pelo período de um ano, findo o qual, seleccionariam a que considerassem de perfil adequado. Sabia-se que em dez, doze anos, quem fosse escolhida, faria o percurso do costume e seria a directora criativa da marca. Não era um emprego. Era o futuro de uma das grandes marcas. Era fazer o nome. Em abono da verdade é preciso dizer: eram as três mais do que competentes, tinham diferentes visões criativas, só isso.
Este nó não preocupou Clara Mendes Rebelo. Não era o género de mulher de correr a corrida dos outros, nem de perder tempo e energia a olhar para o lado. Tinha esta ideia de que a competição era um cenário sem qualquer correspondência com a realidade. Ninguém podia ser ela, nem ela poderia ser quem quer que fosse senão quem era, portanto, em frente.
O nó, para ela, era outro. Depois do divórcio, e porque ela e o ex-marido tinham vendido a casa onde haviam vivido, Clara estava no limite do tempo para reinvestir o dinheiro dessa venda numa habitação própria e permanente - para não se ir tudo em rendas e impostos, e depois ficar sem casa, sem dinheiro, sem nada. A questão era, pois, imobiliária. A questão era, definitivamente, Lisboa. Ora, casas em Lisboa, todos sabemos, estão pela hora morte, que é como quem diz, pela hora do short rental e do estrangeiro investidor ou reformado.
Se Clarinha ao menos pudesse fazer um fast forward de um ano, estar com o contrato na mão, a dirigir o atelier, aí sim, pagaria preços franceses, norte-americanos, enfim, o que fosse. Mas e por enquanto? E a data de entrega do IRS à porta, o anexo G a acenar-lhe e ela, nada, nem uma casa à vista.
Fez contas e mais e mais contas para aquele ano. Não era a possibilidade de perder o atelier que a preocupava. Isso não aconteceria. A preocupação era viver o ano inteiro.
Estava certa. Ser divorciado é caro. É tudo para um: EDP para um; internet, telemóvel, televisão para um, e água, gasolina, condomínio, supermercado e o diabo. E a solidão? Solidão? Qual solidão? Isso é conversa de gente casada que tem quem lhe leve os sacos de compras.
Foi nessa altura que viu o anúncio que a salvaria. Um estúdio num condomínio fechado. Não era perfeito - e o que é perfeito neste mundo? Tinha algumas coisas de estúdio em Tóquio, área mínima, casa de banho e cozinha com sala de refeições partilhadas… Mas que interessava isso? A construção era muitíssimo boa, materiais de primeira qualidade, as áreas comuns ajardinadas, e não se podia desejar vizinhança mais selecta, para o que colaboravam os portões altos e vigiados e as regras estritas como a proibição de ruído.
Clarinha sentia-se um peixinho na água. Os portões fechados davam-lhe segurança. Os vizinhos do lado, uma paz de gente. O silêncio permitia-lhe um sono profundo. De manhã, era a primeira a sair. Acordava fresca, nem tomava o pequeno-almoço na cozinha comunitária, comia uma maçã no jardim e lá ia ela para o ginásio. A seguir, um duche rápido, e às sete meia já estava a trabalhar.
Não poderia estar a correr melhor. Ainda nem tinham passado seis meses e já era evidente que o cargo seria seu.
Até que numa manhã de pleno Junho não foi para o atelier. Nem na manhã seguinte. Ainda por cima, tinha o estranho hábito de deixar o telemóvel a carregar no escritório. Dizia que se desligava da tecnologia assim que saía pela porta. Ao terceiro dia chamaram a polícia pois ninguém tinha o endereço dela. Nem qualquer contacto fora do trabalho. Era extrovertida, isso era um facto, mas reservada. Foi alguém da contabilidade que se lembrou: eu sei que quando ela começou a trabalhar aqui, tinha acabado de comprar casa.
Foram feitas as diligências.
Clara Mendes Rebelo tinha comprado casa, habitação própria e permanente, reinvestindo a totalidade das mais-valias nessa compra e numa pequeníssima obra, conforme declarara às finanças. Um espaçoso jazigo, no Cemitério dos Prazeres, debaixo do qual foi desenterrada, cadáver em mau estado, ou bom, do ponto de vista dos vermes, após um aluimento de terra, que além do seu, tinha destruído parcialmente o jazigo da tranquila família do lado.

17 de junho de 2016

Os anjos sentam-se connosco à mesa nas cadeiras vazias



Já aqui contei que saloios de Memphis, Tennessee, ou dos quatro costados, é comigo. Sei lá porquê, talvez pelo bem que fazem à gente quando usam a nossa fraqueza ao peito.
Hoje, esta noite, ainda há pouco, estava contar a mim mesma a história de como a vida me tem sido boa. É isso: além de coleccionar palavras, e frases que as pessoas dizem, música de ouvido para quem escreve, colecciono felicidades, bondades, sonhos que sonho à noite enquanto durmo, e outras mínimas criaturas, coisas pequeninas, um verso, que nascem no escuro e crescem, crescem sempre em direcção à luz.
A vida tem-me sido boa. Até quando não foi. Nunca me fez tropeçar no que não se revelasse depois um degrau, nem tive sofrimento que não fosse necessário - vá-se lá perceber isto, a gente a deitar contas, a procurar entendimentos, e a água a correr sozinha, sem ninguém lhe ensinar o caminho, em direcção à sede. É assim, são as perfeições que não se deixam explicar, chegam vestidas com outra roupa, até rasgada, mas o coração vê, e quando mais vê, mais vê.

14 de junho de 2016

Ela voltou, a minha andorinha

ELA VOLTOU, A MINHA ANDORINHA
Tenho uma andorinha. Não que ela seja minha. Ela, a ser de alguém, é dela. Mas nem por isso deixa de me visitar: é o terceiro ano em visita, e desta vez, fez como da segunda vez - contei tudo aqui, até a terrível primeira vez, e o mais que possa dizer é repetição, tirando a grandíssima interrogação que esta visita me faz por dentro, pois onde mais seria o avesso do pensamento, se não fosse no raio do sentimento?
Ó andorinha, és minha? Vens-me ver? Ou vens para que te veja?

E eu toda aflita de não ter aprendido ainda como receber esta linda visita alada, vá de ir escancarar janelas à madrugada - não porque queira pôr na rua uma pequenina menina andorinha, porém, e se se enganou, se se assustou, se sabe Deus o quê, a cabeça não me pára de pasmar de ter uma consecutiva andorinha a voar-me casa a dentro Primavera e Outono, às duas e pouco não é tempo de mais nada, se não da minha andorinha, à hora certa, certíssima, um ano após outro, ó mistério, ó ignorância ornitológica...
Depois fico muito quieta. Não quero que tenha medo. Nem que se arrependa da sua valentia. E a minha andorinha a voar cada vez mais perto, cada vez mais baixo. Olá, sussurro-lhe sem uma única palavra, e já ela voltou a fazer razias ao tecto da sala em velocidades alucinantes.
Ninguém acredita em ti andorinha. Só eu. Vou-te filmar como se fosse um turista chinês: faz pose, voo picado, um dois três!
E se é outra andorinha? Deu-lha a primeira o endereço ou uma razão? Quanto tempo vive uma andorinha? Oito anos, diz a pesquisa noctívaga, verdadeira ou falsa, bendita internet.
Sinto que é a mesma andorinha. Não sei porquê. Nem porque vem. Obrigada, andorinha.

5 de junho de 2016

É o que é

À medida que me vou apercebendo da dimensão das minhas fraquezas, também me apercebo que não tenho outro remédio senão integrá-las na minha força. Não sou, não somos, do tamanho dos nossos desejos. Nem das nossas vontades. A nossa medida exacta é a das nossas decisões.

Para que saibas que o mundo é vasto




Um blog também é um diário sem chave, deixado aberto em cima da secretária, quem passa lê, espreita, folheia sem ver, a pensar em sabe Deus o quê, a lista do supermercado, o fato esquecido na lavandaria, e segue adiante. É só um blog.
E até pode ser o tubo de ensaio dos pensamentos por haver, dos poemas por escrever, dos contos, dos romances. O rascunho na sebenta. Uma palavra esconde-se. Enfia-se na noite. E só nos resta segui-la. Aprendi cedo. Não por inteligência ou mérito, só por ter lido muitas vezes a história de João e Maria. Também eles saíram de casa para entrar na floresta e se viram aprisionados na casa da bruxa de onde é preciso fugir tantas vezes quantas ela nos prenda. E deixa-se o pão a marcar o caminho de volta, e os pássaros levam-no. E deixam-se seixos que lua transforma em olhos de gato, e é então que a noite se vê por dentro, e nenhuma bruxa nos prenderá jamais sem que possamos fugir porque a floresta vai connosco dentro do bolso, e o mundo por baixo das raízes sabe o nosso nome.
Isto para dizer, meu blog, Querido Diário:
A noite desta noite estava cheia noite por todos os lados, e do silêncio das coisas adormecidas em cem anos de sono profundo. E eu acordada pelo meu próprio eco - quando era pequena tive uma boneca avariada dos olhos, mesmo deitada, não os fechava, e aquele azul de longas pestanas pretas, ficava ali a furar o escuro até que eu lhe pegasse e dissesse bom-dia.
Quando não estou a escrever, avario dos olhos, Querido Diário, e começo a ouvir o silêncio a crescer devagar e, a mim que nada me falta, de repente, falta-me tudo quanto um dia pensei que me faltava e hoje são sombras de sombras de nadas sem futuro. Porque quando não estou a escrever, quando nem sequer estou a jogar à apanhada com um verso no corredor sem fim da casa da minha avó, não sei o que hei-de fazer das mãos - ainda por cima nem fumo para as ocupar com um cigarro. Não posso ler, estou à espera. Sou uma boneca avariada. Quando não sei escrever, não sei nada. Fico de olhos abertos a furar o escuro.
Querido Diário, ninguém me pegou e disse boa-noite, então, para escapar da bruxa, enfiei-me no Meo Video Clube Inside Llewyn Davise julguei que sim. Mas os pássaros levaram-no. Fui outra vez ao Meo Video Clube The Grandmaster. Voltei aos meus gatos por dentro dos seixos para atravessar a noite e regressar a casa.
Querido Diário, digo-te isto para que saibas que o mundo é vasto.