7 de fevereiro de 2019

Divina Graça

DIVINA GRAÇA


(...)Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O caminho do céu.

Adélia Prado

Ela não vem,
a poesia.
Podia chamar,
sei que nome tem.
Ela não vem mas
o avesso das horas
caminha em sentido anti-horário
com a mesmíssima precisão
do seu gémeo cronológico
onde habitamos. Então.
Tudo quanto foi
e hoje está
na funda memória celular
até ao recuo
da primeira explosão,
amplo, amplo arco
do tempo ao não tempo e,
meu Deus,
porquê este dom da vida
nascido assim do desequilíbrio,
matriz de todos os nascimentos -
e onde regressaremos?
À casa mãe,
indistinta indivisa silenciosa negra?
Trago comigo
o Teu anti-material vazio
e a Tua explosão
de mundos estrelas pontes multiversais
em cada linha:
toda a vida está suspensa em sombra.
A complexa harmonia celeste,
e seus segredos fechados que de
adolescente busquei abrir na travessia da insónia
e das bibliotecas,
repousa longe do meu entendimento
e hoje, finalmente, ao alcance dos meus olhos,
terrível e delicada música,
expressão da Divina Graça:
poema és tu, Poeta,
pulsação em cada verso
do vento estelar, nucleossíntese do Verbo.
Ela não vem.
Não precisa.
Ela está.

27 de janeiro de 2019

Em certas noites desrezo

EM CERTAS NOITES DESREZO

O vento é fino
e os ramos
não têm folhas.
A rua desce
e é preciso descê-la
desde o altar
da comunhão
à solidão
da porta de casa.
Onde estás
que a Tua voz
não vem impedir
o sacrifício diário
do meu coração?
Vale ele menos
do que o filho de Abraão?
Quantas mortes temos de morrer?

E mesmo entre as mortes é possível,
como?
avançar nos livros
e no deserto,
um versículo de cada vez,
com as sementes do céu
no escuro do peito
à espera
da flor
e do verso
vindos da terra prometida
em dois degraus de adeus
antes de a porta 
se abrir
para se fechar
ao rasto de infinito
da rua.


19 de janeiro de 2019

À Senhora Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Regina Alves


LA VIE EN ROSE, SENHORA MINISTRA

Esta foi uma semana cor-de-rosa. Não por ter sido em ouro sobre azul, ou cheia de momentos que fariam a imprensa pink disparar flashes. E também não foi por alguém me ter tido dans ses bras e me ter falado tout bas. Foi de um rosa político-evangélico. Agora pergunto, senhora Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, de onde lhe vem esta loucura colorida? Do pé de goiaba? É o mandamento perdido de Moisés? E já lhe contaram que há também um rosa-menina farmacêutico, Filibanserin, a fazer pendant com azulinho-menino Viagra? E se o menino usar com menino, e a menina o usar com menina, abre-se a rosa e rasga-se o céu e ui que medo, lá vou eu? E se heterosexualmente utilizados, rosa e azul, é o quê, arroxeado? Arroxeado pode? E se for só prazer sem procriação, é pecado e não mora ao lado, é mesmo ali? 

Que inspiracional, senhora Ministra, separar menina e menino em cores de comprimidos para as disfunções sexuais. Lógicas destas, que pílula, já chega, são demais. E já que estamos nisto: não lhe parece razoável que, se o sexo for uma função, se disfuncione de vez? E o prazer des mots d´amour, des nuits a ne plus en finir? Isso é que fait quelque chose a ponto de se ver la vie en rose, não é cá a função. Nem a segregação. Mas vamos por partes.

O azul e o encarnado foram as cores da realeza, por excelência, no ocidente - se viajarmos em direcções orientais encontramos os amarelos dourados imperiais exclusivos. Na igreja católica esse esquema azul-vermelho é sempre presente. No mundo da cultura pop onde se emulam os mundos reais e religiosos, o que são as red carpet se não um pisar como reis e deuses?

Ora, o uso da cor rosa esteve sempre assimilado ao vermelho, digamos que é uma diluição homeopática do encarnado pelo branco, e associado à vida, à boa carnação, às boas cores.  Uma cor que se encontra no traje masculino ao longo dos séculos. Séculos, senhora Ministra. No traje feminino também, ainda que até ao século xviii, menos. E antes dos anos cinquenta do século xx, altura em que géneros e papéis se extremaram, não passava pela cabeça de ninguém dizer que o rosa era uma cor feminina. As cores, do início do século xx até essa data, não tinham género: tinham idade: o rosa era uma cor infantil e juvenil.

Claro, nos anos setenta, a cor tinha perdido a força dita feminina: quem fez a Revolução Sexual e o Maio de 68 não vestiria os filhos em rosas e azuis polarizados: a minha geração, senhora Ministra, foi a primeira a ser vestida com a moda unisexo, calças de ganga, t-shirt pro menino e pra menina. O que sucedeu depois, quando a minha geração começou a ter filhos, foi que o unisexo perdeu a força e voltaram os rosas, os laços, e os azuis. Pais conservadores, filhos rebeldes, pais rebeldes filhos conservadores…

Se o azul vem do céu e da água e com ele vem a razão, de onde e com quem vem o cor-de rosa?

O cor-de-rosa vem com a flor. A flor branca e a flor encarnada. E vem de sempre. Do vale de Saron para iluminar a beleza da amada no Cântico dos Cânticos; para nomear a perfeição de Cristo, para, cálice, recolher o Seu sangue e inspirar demandas e para transmutar o vinho. E vem na Matéria de Bretanha e faz-se o símbolo por excelência dos seus cavaleiros e rosa cândida na Divina Comédia. E faz-se pedra no gótico aspiracional. E são rosas cor-de-rosa as que Afrodite inventa às portas da morte de Adónis quando se pica num espinho e sobre o branco da flor cai uma gota do seu sangue. Rosa profana. Rosa sagrada. Da pureza à paixão em todas as colorações do branco ao vermelho, da alma aos maravilhosos Rosarium Philosophorum.

E a pílula cor-de rosa, senhora Ministra? Não me refiro a esta que nos quer fazer engolir, à outra, à concreta que se toma com um copo de água, Filibanserin. Bem, palpita-me que não é flor que se cheire. A pílula azul, Viagra, afecta, vá, a engenharia da coisa, é o levanta e cai da questão. Já o comprimido das meninas é dirigido ao software – mexe com a intimidade do rico cérebro. Ora, se é para mexer por mexer com cérebro, quero dizer, com o desejo, mais vale a fórmula clássica que a tia Edith Piaf tão bem escreveu. E nem sequer tem contra-indicações.

Senhora Ministra, imagino que a indigne que assimile a sua dicotomia colorida à disfunção sexual. Mas veja bem, antes disfunção sexual do que restauração sexual – em português de Portugal por muito que restauremos, casas, pinturas, enfim, de um tudo, quando falamos de restauração, falamos de restaurantes, de comida,  e quando falamos de sexo, se calhar por nos saber tão bem, também dizemos barbáries antropofágicas, por exemplo, comia-te todo! Seja qual for o prato diante de nós, senhora Ministra, que não haja disfunção do apetite.

Duas notas mínimas antes de terminar. Uma. 

Senhora Ministra, sou portuguesa, mas sou mulher, logo humana, e tenho família, tudo alçadas do seu talento, e se lhe falo é porque o meu passado brasileiro me condena, e se é extenso: o meu primeiro namorado foi Pedro Bala, filho de Jorge Amado e, ó, se eu o amei. E na madureza dos dezoito anos plenos e bígamos chegaram o meu perfeito marido Drummond, à direita, e Machado à esquerda – Dona Flor mais feliz não houve, há-de ser por isso que sou de um centro moderado. E amigas de uma vida inteira: a minha avó e Cecília Meirelles, eu e Adélia Prado, dois romances felizes sem atrapalhação de género.

A outra. A terra é redonda. E é uma nave onde todos viajamos. No imenso espaço. Ao longe, muito longe, mal se vê. É um ponto. Num ponto não há fronteiras, nem brasileiro-português, mesmo quando o infinito está em todos quantos cabem nesse ponto. E quero mesmo dizer todos sem excluir nem um, nem sequer a senhora Ministra. Plana só mesmo a tabula rasa que devemos fazer do maluquedo que  a senhora Ministra anda para aí a dizer.




Ps: a despropósito: Deus não fala comigo. Nem me aparece. Nunca fez o favor de me aparecer. Mas estou convicta de que o sinal de Deus é o amor, o imenso amor, o infindo amor e sua compaixão, o abraço que a todos acolhe. Não escolhe. Como na bela imagem medieval de Nossa Senhora do Manto.


Ps 2: olhe, senhora Ministra, que lindo artigo: 
https://www.theatlantic.com/sexes/archive/2013/08/pink-wasnt-always-girly/278535/

17 de janeiro de 2019

Flor acesa

FLOR ACESA

Tanta noite
nesta insónia,
e vigília:
abriu-se a flor,
acendeu-se o escuro.

O coração é uma flor.

A Perfeição do Nó Torto

A PERFEIÇÃO DO NÓ TORTO

Há coisas muito bonitas,
esta é uma delas,
e não as podes evitar -
nem as conheces.
 São uma digital
fora do dedo, solta
na vida, uma alegria,
minha luz da manhã
toda particular:
o nó torto da tua gravata
sempre inclinado à direita.
Não te vejo mas sorrio-te:
que fazes tu ao espelho?

Quem vai ao mar perde o lugar


Igor Levit por Robbie Lawrence


Quem vai ao mar perde o lugar

Gulbenkian. Igor Levit. Eu como o diabo gosta. Entupida de antibióticos, mais Symbicort, Brufen, enfim, de um tudo: a alegria das farmácias. Sala quase cheia. E isto é um mistério gulbenkiano: são mil as vezes em que não se consegue um raio de um bilhete, dois lugares consecutivos então... é coisa da ordem dos milagres ou de uma previdência incompatível com o mundo, mas aceitamos, e entre milagres e previdências, vamos. E chegamos e zás, lugares vagos. E não é um nem são dois.
De quem são aquelas cadeiras? Vendem-nas? Licitam-nas? Posso ficar com uma e pregar-lhe uma tabuleta nos costados a dizer Eugénia de Vasconcellos?
Na verdade, isto até seria em benefício da própria Gulbenkian: daqui a um monte de anos, quando eu estiver a escrever noutro multiverso qualquer, neste, um diligente funcionário desta bela instituição poderia dizer: esta era a cadeira de EV, poeta tão extraordinária que para ser perfeita só lhe faltava a modéstia; é que não nos deslargava, nem durante a semana nem no dia do Senhor: era café, era Almedina, era jardim, era piano, orquestra, violino, ópera... vá, ao menos nas conferências era um calhar, quer dizer, vinha quando lhe calhava ao gosto e sentava-se onde calhava que só era esquisita no Grande Auditório - toda a gente sabe que os guias falam exactamente comme ça.
Quando era pequena e até ser grande, tudo se passava no cinema que era teatro. Lá, ia para a frisa. Era um descanso. Bem. Havia as precedências: tias velhas, primos mais velhos e depois, ao fim, os mais novos. Nunca havia dramas salvo quando havia ópera e não se dava a multiplicação das cadeiras que eram seis nem das sessões que em regra eram duas. Só nervos! Mas desperdício de cadeiras, não.
Hoje a sala portou-se malzinho. Telemóveis a tocar, três. Dois na primeira parte, um, na segunda. Tossicava-se aqui  e respondia uma tosse cavernosa ali. É Janeiro. Uma senhora foi tão mas tão mal olhada e ssshhh  ssssh durante um ataque de tosse que se levantou e saiu a meio da primeira parte. Se tivessem pedras... Regressou na segunda.
Confesso, também tossi. Só uma vez. O grande ataque de tosse do finzinho da primeira parte, fui eu. Azarucho, não conseguia respirar. Não saí. Paciência que eu também a tive e durante duas horas ininterruptas. Sim. Até no intervalo.
O senhor catarrento nas minhas costas, comentou tudo em directo. Tudo. Tossia. Comentava. Mas era um tossidor transazonal-fumador o que, como toda a gente sabe, é outro estatuto - permite insultar senhoras tossidoras sazonais não fumadoras, por exemplo. Não se calou. O tempo todo que o raio do homem gostava de se ouvir e, pior, já era um bom bocado surdo. Olha para isto, com a mão esquerda quando isto foi transcrito para as duas mãos por laialailai e ontem no Mezzo, sim porque eu é Mezzo e Bravo e laialailai. E mais do mesmo, que vergonha, não tem vergonha, nem têm vergonha, trazem gente desta que escolhe isto com tanta peça bonita que Schumann tem e laialailai. Sssssh... esta devia ir tossir lá para fora.
- Não fui eu, ó comentador tússico do inferno, cala-te lá bicho do ouvido que foi o meu alter ego que está sentado nesta cadeira vazia aqui ao lado!

Um passo ao lado

Sim, estou a ver-te!




Um passo ao lado 


Veneza. Turistas em corrente infinda em grupos de dezenas avançam pelas ruas, as malas de quatro rodas low cost batem nas pedras e degraus. Todo o dia. E tomam conta das pontes e das praças para incontáveis selfies de canal à frente, canal ao lado, no centro do canal, da praça, ao centro da sala do palácio, da torre, da tela, da gôndola. Têm gorros com um enorme pompom e usam ténis. Fazem fila.

Há uma fila de cinquenta japoneses, alguns de máscaras hospitalares, para entrar no Florian.

Um passo lado, do outro lado, se fossem à salinha pequena do Gran Quadri, à esquerda de quem entra, quatro mesas e um balcão, não teriam máscaras, só café moído na hora - a melhor bica da minha vida e isto não é dizer pouco. Forte. Creme espesso. A perfeição das manhãs em chávena pequena.

E os restaurantes venezianos nas ruas de maior trânsito... são chineses. Pizza e pasta intragáveis de gordura pré-cozinhada. Basta olhar para perceber. E os menus com fotografias dos pratos plasmados nos vidros das janelas.

Mas um passo lado. Ruas vazias. Roupa nos estendais. Pombos dormentes. E filas só de copos altos de spritz , ao balcão do fim da tarde, nenhuma outra língua para além do italiano, nem um gorro de pompom maior do que o rabo de um coelho, nem um, as mulheres usam kubankas de raposa ou do que for, Laras Antipovas com Zhivagos a tiracolo ou de serviço, deslizam de saltos altos e casacos compridos de deixar a PETA à beira de um ataque de nervos. 

À direita e à esquerda, tudo é belo. Até o estaleiro de gôndolas, acidental e fechado, longas pranchas de madeira amontadas a tomar nevoeiro como se fora sol. 

Uma igreja aberta há mais de doze séculos, caída e levantada como nós, pias cheias de água benta, água suficiente para tanto mal, e nem um crente nem um visitante, e mesmo assim um mistério de velas acesas. Um passo ao lado, colado, viveu um alquimista e sobreviveram-lhe as pedras inscritas a claros símbolos enterradas nas paredes amarelas. Vielas estreitíssimas e decadentes. Belas na sombra húmida que nenhuma luz rasga. Pátios inesperados atrás de portões altos. Belos ao céu descoberto do tempo. 

Nos edifícios, medalhas a torto e a direito: aqui viveu x, ali escreveu y, ali morreu z. As pessoas passam, as casas ficam. As ruas. Morrer, antes, parecia-me um escândalo, tinha a cabeça formatada em Cesário Verde, ai se eu não morresse nunca e eternamente buscasse a perfeição das coisas. Merda para isso. A eternidade não precisa de mim para nada.

Nem há Bach suficiente para nos salvar por muito que aqui cresça na acústica perfeita das igrejas. A beleza não salva ninguém nem quando os Tintoretto são mais do que os pintores de rua e as gaivotas se passeiam, de asas fechadas, passo a passo, a cabeça altiva, como orgulhosos cães sem dono.

Porém, na casa onde Peggy viveu, ainda está uma Maiastra de Brancusi. Essa ave cujo canto, não há romeno que o não saiba, resgata da escuridão quem a ouça.


Vemos tudo, tudinho, não é?



Veneza, Natal de 2018

7 de dezembro de 2018

Funciona!

Em pleno Campo de Ourique...
...o botão que reinicializa o mundo. E funciona!

11 de novembro de 2018

Consubstancial à Luz

CONSUBSTANCIAL À LUZ


Emergiu, gerado do majestoso caos,
este coração consubstancial à luz.
E neste mar-tempo todo de impressões debatíveis,
débeis, inter-substituíveis, avança contra corrente,
inalterada jangada indiferente 
de força antiga agora proibida:
antes, chamávamos-lhe Destino,
Amor dentro do Plano Divino,
inevitável eu-tu, inexorável;
hoje, apenas desuso de palavras raras,
e de fundíssimos sentimentos
na alta raiz das coisas claras.