15 de outubro de 2018

Então, vá...

oopsie...


então, vá.

O meu avô, bicho afectuoso, brincalhão, combustivo e com a força bruta de quem se disciplinou pelo desporto, abraçava. Mas abraçava mal. Era excelente no abraço rápido e forte, mas se a coisa demorava, zás, umas palmadinhas leves nas costas a indicar time's up o que, toda a gente sabe, em português traduz-se por então, vá. 

Ora, se há quem confunda as palmadinhas nas costas com tão bom, mais um bocadinho, posso garantir, apesar de não ser uma especialista, é o oposto. É deslarga-me. É está feito. É se já fui, deixa-me ir. Aliás, uma das minhas grandes especialidades inúteis é isto, ou melhor, é disto: linguagem corporal - dos outros, claro, que não ando com um espelho à frente, e a expressão da aldrabice/verdade conforme ambas são percebidas pelo próprio do aldrabão/verdadeiro que somos todos nós. Sim, o ser humano dito normal mente, ó escândalo, todos os dias. Os homens mentem o dobro das vezes da mulher. Não é, em regra, um mal: é uma defesa, uma estratégia de sobrevivência, uma forma de facilitar as relações cordiais. Já viu o drama que era? Querido, fica-me bem este vestido? Não, filha, faz-te o rabo grande. Ninguém merece, pronto. Enfim, acho quase sempre graça quando as pessoas mentem e quase sempre têm razões bonitas para o fazer, ou boas e práticas. Ou patetas, o que é uma das minhas coisas preferidas: as nossas patetices, o lado vulnerável de cão pequenino a fazer frente a cavalos como o meu lindo Cão fazia só porque era valente. Também somos valentes. Escolho sempre acreditar: quando posso, na mentira, já que fizeram gosto em contá-la, há-de ter importância, quando não posso, tento perceber a razão dela já que se deram ao trabalho. Faço, portanto, que não dei por nada.

Se estiver atenta, o que raramente acontece porque prefiro estar descontraída, há verdades que evito como o diabo à cruz. São as verdades, então, vá. As palmadinhas. As expressões muito óbvias de mas que chatice aturar este agora... Prefiro mentir. Afinal, todos somos cavalos. E cães pequeninos, somos também. À vez. E ora aqui, ora ali. Hoje somos um, amanhã o outro. Com o privilégio de sermos cavalos, vem a responsabilidade de não coicearmos o cão pequenino. Ão.

8 de outubro de 2018

E este, meus senhores, é um grandíssimo texto

E este, meus senhores, é um grandíssimo texto a inaugurar a semana... Ide ler.

6 de outubro de 2018

O Pequeno Livro dos Grandes Insultos

No dia 16 de Outubro, poderá comprá-lo na livraria, mas se quiser insultar com propriedade antes dessa data, para quê esperar se este rubro livro que deixará o insulto rubro de satisfação está disponível em pré-venda, aqui, no site da Guerra & Paz?


4 de outubro de 2018

Modo celebratório: 1ºAno

Saltou-te a tampa!


E zás! a tampa da garrafa do azeite desapareceu, já virei a cozinha ao contrário, ó raios, sabia lá eu que de Moura me vinham ilusionistas...
Ai que linda...


A carne está no forno: temperei, recheei, atei - diabos, sou o Araki do do lombo de porquinho preto!- selei-a bem selada e depois aproveitei aqueles belos sucos, acrescentei vinho, desprenderam-se, e reguei-a quando a pus no tabuleiro. Até pode sair mal, mas por enquanto o cheiro do alecrim perfuma tudo.
E porque não se descascam sozinhas? Que dependentes!

Agora, agora as batatas que ainda falta o puré e gratiná-lo e tal.

Viva!

3 de outubro de 2018

A mudança

Não grite que é tarde!


a mudança

Faz hoje um ano estava de olhos abertos, no meu quarto, sentada na cama, a olhar pela janela sem cortinados, a janela ao lado da mesa de cabeceira e que tem uma mínima estante por baixo. Cheia de livros logo na primeira noite. Tinha o telemóvel na mão. A rua vazia. Os milagres dão-se no ecrã - não sei se pelo seu carácter luminoso ou por se escrever neles como uma tábua de Moisés.


Uma mudança é uma forma voluntária, e no meu caso desejada, de violência. Queria vir. Precisava. Procurei incapaz de não encontrar. Encontrei. Tratei de tudo e de mais teria tratado se houvesse para tratar. O que fosse. Mandei pintar, reparar, limpar. Planeei. Tinha uma visão clara. Claríssima. E a luz? que luz por estas janelas dentro voltadas de frente para a vida, e como ela se espalhava, e mais o enfiamento do céu na perfeita rosa nos ventos: era o norte que sonhara. Vi tudo nítido antes. A disposição dos móveis. Até o lugar dos Santos e do grande volume do Caravaggio. A aguarela do Cão. Sei lá eu como. Organizei. Uma das minhas poucas virtudes úteis é esta: organizo com o pensamento com tal ordem e precisão que a materialização é exacta. A internet chegou antes de mim. A casa é ao pé disto e daquilo e da farmácia e do jardim e do supermercado? Sim, é. E há árvores maduras, passeios planos, café e banco. Lavandaria. Livraria. Restaurante. Tem tudo quanto conta. Elevadores. Escolhi bem. Conta? Não conta. O que é isto de desempacotar caixotes de quilos de livros? Preparar o cartão desses mil caixotes para a reciclagem, ter louça sem fim para lavar depois de lavada antes de a empacotar, uma fila interminável para a máquina e nem uma só formiga que nos salve enquanto dormimos - que pena não ser Psiché. Não ter Eros ao pé. Qual Eros... E assim mesmo tudo. Tudo feito. E mais fosse. 


O meu tio tinha morrido. Antes adoecido. Uma tristeza pegada a outra que o sofrimento não tem perdão. E tinha ficado mais dois meses imprevistos. Então, cheguei num dia de calor inesquecível e com o suor e o luto agarrados à pele. Eu própria não estava bem, ainda, e tive tanta ajuda, a minha mãe conduziu o meu carro até aqui, o meu cunhado no Jeep da minha mãe conduziu as manobras com a transportadora e deixou-me um candeeiro provisório montado na cozinha para que eu não tivesse deprimidas lâmpadas penduradas. Estas pequeninas coisas ficam connosco depois das lâmpadas se apagarem. Os livros arrumados na parte de baixo do armário logo inamovível pelo peso das páginas. Foi a minha mãe que me arrumou o Jung ali, alinhadinho. O pensamento pesa que se farta.


À despedida, ao fim da da tarde desse primeiro dia, a minha mãe, como se eu fosse cega, ou ela já a prever, estão aqui as canadianas. E eu as canadianas vão. Foram. Dizemos estas coisas como se o mal e o bem estivessem à distância da palavra que os rejeita ou acolhe. Não estão, pois não?


A véspera do primeiro dia de escola. A bata pronta, a pasta preparada. E a gente de olhos abertos à espera que a noite alquímica nos transforme nesses seres do amanhã que escrevem e lêem. Vivem pelo seu próprio pé. É o mundo à nossa espera - ou nós à espera de viver.


Passou um ano inteiro. É noite outra vez. Há quanto tempo estão já os cortinados na janela do quarto? E não mudou nada: tenho ainda o telemóvel na mão.

28 de setembro de 2018

Canção a meio do caminho


com Cecília Meirelles e Amália Rodrigues

CANÇÃO A MEIO DO CAMINHO

Não tem que enganar:
o impensável deu-se,
foram montanhas,
foram mares,
foram os números,
tu sabes,
e tiveste de pensar
essas coisas singulares
e isso é o sal na carne viva,
a guitarra muda,
e nem Wittgenstein te salvou,
se nem Deus a Cristo quanto mais,
é o fim do fado. É o fim. É o fim. É o fado.
 A vida agora é o campo das potencialidades,
e a morte.
E, pasma-te, como é possível?
nada arde na derrota
e as vitórias são risíveis.
Tabula rasa és tu que
já foste perfeccionista de base,
control freak,
tenso na quinta casa,
autoritário incapaz de respirar fundo
sem se engasgar,
e sonhador, lírico, apaixonado.
Resumido:
foste palhaço e foste pasto. Foste comido.
A liberdade. A bendita liberdade.
Encolhes os ombros. Sorris um pouco.
Só posso ser o que sou,
é o que tenho,
as mãos são estas.
É o que for.

23 de setembro de 2018

Morte à Chegada

MORTE À CHEGADA

O mal também tem este nome:
morte à chegada -
 e nada podemos diante dele, nada.
Pensavas que ias viver
mas a aurora despontou no escuro,
o fiat! escondeu-se atrás dos dentes cerrados,
na boca fechada,
e os anjos vestiram as asas pretas.

10 - uma mulher de sonho



10 - uma mulher de sonho

É incontornável. Homens e mulheres não são iguais. Não são iguais no corpo, não são iguais no psiquismo, não são iguais na mecânica mais ou menos quântica do cérebro. Não são iguais. Os homens contam. As mulheres relacionam. 

Um estudo recente pôs ao léu os pensamentos masculino e feminino na escolha de parceiros. Na verdade, poderia ser um estudo de 1979 e realizado por Blake Edwards. Poderia ser 10. Ou em português, 10 - uma mulher de sonho. Explico. 

O homem faz uma auto-avaliação, isto é, dá-se uma nota num conjunto de critérios: rosto, corpo, rendimentos, profissão, competências sociais... Soma tudo de zero a dez. Depois das contas feitas, procura uma mulher que, na sua avaliação, tenha uma pontuação igual, ou um, dois, ou no máximo três pontos acima. Não é, por isso, surpreendente ver um homem de muita idade, envelhecido, e de grande sucesso económico, ou poder específico, ao lado de uma mulher muito jovem, elegante e bonita. Espelham-se na auto-avaliação. Para além destes casos extremados de grandes diferenças de idades e grandes correspondências de avaliação, há o pão nosso de cada dia, e são quase todos os outros. À esquerda e à direita, encontramos casais que claramente se espelham e de forma mais simétrica: no mesmo patamar de beleza, ou de paisagem social, ou económica, ou profissional. E isto também fala das hierarquias que os conduzem, o foco que os dirige. Resumido: no que querem da vida. Igualmente fascinante é olhar para os segundos ou terceiros casamentos, numa idade de maturidade em que a auto-avaliação já não é a mesma da primeira viagem no carrossel da selva e, assim, permite os encontros que na primeira volta seriam impossíveis por assimetria. A pontuação, portanto, não é estática,  a que se auto-atribui e a que se dá aos outros. Muda a beleza, muda a pontuação. Muda o sucesso, muda a pontuação. Muda o comportamento, muda a pontuação.

As mulheres não dão pontos. Não contam. Mas é igualmente fácil perceber quantos pontos se dá uma mulher: basta olhar para o marido/namorado/híbrido. A escolha da mulher é futurista: a mulher escolhe no presente aquele que lhe parece ser o melhor garante de futuro, qualquer que seja o futuro pretendido na qualidade ou duração.

A parte mais gira do estudo, no entanto, são os grandes erros de avaliação. E pasme-se, quem conta melhor, é quem se engana mais e é mais propenso a cometer grandes erros de avaliação. Porque um homem avalia no presente. Ontem não existe. Amanhã também não. Os homens não contam algo com que as mulheres contam sempre: o potencial. E o melhor dos predictores, o passado. Então, o mais frequente e mais consistente erro do homem é subestimar a mulher que avalia. O mais frequente e mais consistente erro da mulher é sobrestimar o homem que escolhe.

Mal por mal, antes mulher que homem.